O secretário-geral comunista defendeu esta terça-feira que a vida do país "não vai lá com geometria variável", referindo-se a eventuais acordos políticos do PS à direita e à esquerda e reiterou a necessidade de alterar a legislação laboral.

O grande problema é que, traduzindo isso numa expressão daqui há uns anos atrás com [antigo primeiro-ministro socialista António] Guterres - é a chamada geometria variável: entendimento com uma parte em questões sociais, entendimento com outro nas questões de fundo, estruturais. Isto não vai lá com geometrias variáveis, mas com a rutura com a política de direita que nos tem afligido durante tantos anos e procurar uma saída patriótica e de esquerda", disse.

Jerónimo de Sousa falava à porta da OGMA (Indústria Aeronáutica de Portugal), Alverca, distrito de Lisboa, no início de uma campanha nacional do PCP de contacto com trabalhadores, e rejeitou também mexidas na Taxa Social Única (TSU) que as empresas pagam como forma de combater a precariedade.

A verificar-se essa convergência [PS-PSD] o resultado não é bom porque a vida provou isso. Não é apenas a opinião do PCP. Foi a própria vida do nosso país, a política realizada, com um bloco central mais ou menos formal", afirmou, questionado sobre a postura de diálogo entre o novo presidente social-democrata, Rui Rio, e o líder do Governo e do PS, António Costa, nomeadamente sobre descentralização e futuros quadros comunitários de apoio.

O líder do PCP sublinhou que o seu partido, respeitando o diálogo institucional PS/PSD, mantém o princípio de estar "do lado das boas propostas, das soluções para o país e contra aquilo" que considerar "negativo para os trabalhadores e o povo portugueses" no "exame comum" do Orçamento do Estado para 2019, ao comentar declarações da homóloga do BE, Catarina Martins, sobre entendimentos à esquerda acerca do investimento público.

TSU agravada

Sobre a hipótese noticiada de o Governo do PS ir desistir de aplicar uma TSU agravada para empresas que recorram a trabalho precário, Jerónimo de Sousa contrapôs a importância de valorizar os vínculos e os salários, exemplificando com o caso da OGMA, cujos "3.000" funcionários, "há cinco anos, não veem um cêntimo de aumento".

Não é com menos descontos para a Segurança Social ou políticas fiscais que se resolve o problema da precariedade. Resolve-se quando for assumido o princípio fundamental de que num posto de trabalho permanente deve haver um contrato coletivo. Seja de agravamento ou desagravamento... Desagrava-se [a TSU] e os trabalhadores continuam com vínculos precários!?", questionou.

Na véspera de mais um debate quinzenal com o primeiro-ministro no parlamento, o secretário-geral comunista prometeu voltar a confrontar António Costa com "questões relacionadas com a legislação laboral e das comunicações, esse drama, escândalo, de haver tantos portugueses, depois dos incêndios [de junho e outubro de 2017], que continuam sem ter a possibilidade de ter um telefone fixo" nas zonas afetadas, alegadamente por falhas da Altice/PT na substituição de redes.

Jerónimo de Sousa afirmou que, apesar da "reposição de rendimentos e direitos" desde as posições conjuntas assumidas em 2015 por PS, BE, PCP e PEV, este é ainda "um caminho claramente inacabado", com "problemas de fundo por resolver", como os das "longas carreiras contributivas".

A comitiva do PCP distribuiu panfletos e cumprimentou centenas de trabalhadores na mudança de turno, em Alverca, defendendo "mais salário, horários dignos, tempo para viver, emprego com direitos, melhores condições de trabalho" e "revogação das normas gravosas da legislação laboral, como o "fim da caducidade da contratação coletiva" e o "princípio do melhor tratamento ao trabalhador".