«As tropas americanas não voltarão a combater no Iraque»

BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos da América

Uma lição que a História insiste em nos ensinar é que um grande problema nunca está verdadeiramente resolvido.

Os recentes (e muito preocupantes) acontecimentos no Iraque, com os avanços do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), primeiro em Mosul e nos últimos dias noutras zonas cruciais do território iraquiano, dão conta da necessidade de olhar muito a sério para a situação.

O Iraque foi, na última década, talvez o maior problema da política externa americana.

Não foi criado pela decisão de George W. Bush de ir para a guerra em 2003 (na verdade, o regime de Saddam já era uma inquietação para Washington desde a primeira guerra do Golfo, inícios da década de 90).

Mas sem dúvida que depois dessa decisão profundamente errada de se avançar para a guerra, nos idos de março de 2003, a questão iraquiana passou a ser um «mantra» sem resolução na Casa Branca e no Pentágono.

Ditou a queda definitiva de popularidade do 43.º Presidente dos EUA, obrigou-o a infletir a estratégia para o Iraque nos últimos dois anos do segundo mandato (com a entrada de Robert Gates para o Pentágono e a nomeação do general David Petraeus para comandante das tropas no terreno e a aplicação da «surge»).

Entre vários fatores que levaram, em 2008, à eleição de Obama, uma delas foi, sem dúvida, a noção de que os americanos discordavam daquela guerra. A opinião pública norte-americana sentia-se muito desgastada com as marcas da guerra, com o número de baixas, com os gastos brutais da intervenção, com as consequências que isso gerou para a Economia dos EUA e do bloco ocidental.

Com os anos Obama, a ordem foi, pois, para a retirada americana de Bagdade.

A saída das tropas dos EUA de território iraquiano não foi fácil: passou por várias etapas, mas cumpriu-se em tempo politicamente aceitável, dentro da agenda presidencial de Obama.

Mas a América não está em condições de se abster por completo da questão iraquiana. Nem o quereria, de resto.

Como maior potência militar e económica que ainda é do Mundos, os EUA têm interesses estratégicos demasiado importantes na região para assistirem impávidos a uma insurgência extremista nos postos de poder em Bagdade.

A reação nervosa, podemos mesmo dizer receosa, dos mercados petrolíferos nos últimos dias bastaria para o demonstrar: o escalar da situação no Iraque implicaria um aumento descontrolado do preço dos combustíveis nas economias norte-americana e europeias, numa fase em que estas se encontrem ainda numa frágil e lenta recuperação do consumo.

Por outro lado, Washington sabe que tem responsabilidades fundamentais nesta situação. Depois da invasão de 2003, da deposição de Saddam e de um dificílimo processo de «democratização» do Iraque, e com muitos atentados e mortos à mistura, Bagdade experimentou alguma estabilidade nos últimos anos, fruto de um curioso equilíbrio de forças ditado essencialmente por americanos e iranianos (rivais e adversários no tema nuclear, mas com receios comuns na insurgência sunita no Iraque).

A «convocação» dos americanos por parte de Teerão em relação a este tema volta a mostrar que a América se mantém como «player» fundamental para o equilíbrio naquela região. Outros países, como Jordânia, Arábia Saudita, Kuwait e mesmo a Turquia não esconderam, nos últimos dias, profunda preocupação com este novo dado no Iraque.

O recente périplo do secretário de Estado, John Kerry, pela Europa e Médio Oriente deixou claro que a Administração Obama está atenta. O Presidente reforça que não vai haver mais «boots on the ground» no Iraque e começou por enviar 300 conselheiros militares americanos para ajudar o poder iraquiano, ameaçado pelo EIIL.

Mas... chegará?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»