Depois de um debate quinzenal cordial, na véspera, os deputados voltaram, nesta quinta-feira, a reunir-se, a pedido do PSD, em plenário na Assembleia da República para discutir, em tom muito mais aceso, o que aconteceu no trágico incêndio de Pedrógão Grande, com os sociais-democratas a exigirem respostas imediatas ao Governo e a insistirem que "o Estado falhou".

Teresa Morais colocou as questões em nome do "povo", a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, respondeu em nome do executivo, já depois de PCP e BE terem dito o mesmo nas suas intervenções iniciais, que é preciso esperar pelas conclusões, com a esquerda que suporta o Governo a criticar desde logo o PSD pelo aproveitamento político da tragédia.

"Passaram-se 13 dias sobre o início da maior tragédia nacional que sofremos, nos tempos até onde a memória nos consegue levar, mas ainda não sabemos: porquê?", questionou a deputada e vice-presidente do PSD.

Estamos a recolher, a analisar com profundidade, a cruzar dados para que possamos ter algumas respostas. Agora seria absolutamente irresponsável da minha parte tirar conclusões quando ainda não temos dados que nos permitam dar resposta a todas essas questões. Nós devemos ter respostas e explicações, devemos isso aos portugueses, mas devemos em primeiro lugar às vítimas", argumentou a titular da pasta, um dia depois de ter sido ouvida em comissão parlamentar.

Constança Urbano de Sousa disse que, neste momento, tem apenas uma certeza, de que o que aconteceu em Pedrógão Grande não é fácil de explicar.

Aquilo que aconteceu foi um grande incêndio, mas aconteceu qualquer coisa de anormal que em duas horas fez com se propagasse para todo o lado e atingisse um pequeno espaço dentro daquele enorme incendio. Olhando para as imagens de satélite, o incêndio de Góis comportou-se de forma diferente."

Por toda esta "anormalidade", que poderá estar na origem do fogo que tirou a vida a 64 pessoas, incluindo crianças, a ministra apelou a que não se tirem "conclusões precipitadas do que o A diz a um jornal ou do que o B diz a outro".

Aquilo que ouvi no terreno de pessoas experientes é que nunca tinham visto nada assim, uma espécie de tsunami de fogo, palavras minhas. Todas as questões têm de ser respondidas. (...) Precisamos de tempo para corrigir informação fidedigna e, portanto, reitero toda a disponibilidade do meu Ministério para responder a todas as questões."

Contradição e desnorte do PSD

Em resposta à intervenção do PSD, quer o PS quer o BE acusaram o PSD de contradição e desnorte, por exigir respostas imediatas ao mesmo tempo que propôs uma comissão técnica independente, já aceite, para apurar os factos relacionados com este incêndio.

Qual é o PSD com que dialogamos, o da intervenção de Teresa Morais ou o que nos vem dizer que é preciso sentido de responsabilidade? Responda-nos qual é a crise de identidade que vai na sua bancada, temos responsabilidade, não queremos leviandade", afirmou o socialista Jorge Lacão.

Já o bloquista José Manuel Pureza declarou que o PSD nesta matéria "tem dias". 

Ontem [quarta-feira] Pedro Passos Coelho apelava a que houvesse um esclarecimento cabal, rigoroso, hoje [quinta-feira] a senhora deputada vem requerer respostas já. Isso mostra como o PSD está profundamente desnorteado", acusou, questionando ainda Teresa Morais sobre a renegociação do SIRESP em 2015, antes da chegada do novo Governo PS.

O PCP lembrou que "considerações pressupõem conclusões" e, nesse sentido, adiantaram desde logo que não iam participar em "lógicas de passa-culpas sem nada ter sido apurado". João Oliveira optou por questionar Teresa Morais se o PSD iria "reconhecer o erro das opções do seu Governo", referindo-se por exemplo à redução do número de efetivos na GNR ou à extinção das freguesias, determinantes no primeiro apoio à população.

Também o deputado do PEV José Luís Ferreira lamentou que o PSD nada tenha dito sobre ordenamento florestal e questionou o partido sobre o travão na plantação de eucaliptos.

O que aconteceu aos bombeiros feridos?

Teresa Morais negou qualquer contradição, dizendo haver respostas que exigem um aprofundamento técnico e outras mais imediatas.

"Há perguntas que já deviam ter sido respondidas há muito tempo e uma delas é por que pessoas feridas deambularam 10 horas até serem assistidas no hospital?", interrogou a deputada social-democrata, referindo-se a um bombeiro ferido, Rui Rosinha, já depois de ter afirmado que não havia qualquer informação sobre o estado de saúde dos quatro bombeiros que sobreviveram ao incêndio de Pedrógão Grande e que continuam internados.

A ministra passou a palavra ao seu secretário de Estado, que apresentou aos deputados o boletim clínico daqueles operacionais.

A bombeira Filipa Rodrigues está internada em Coimbra, em estado estável; Fernando Gomes Tomé está em Santa Maria a evoluir favoravelmente; Rui Antunes Rosinho, que estava internado na Prelada com prognóstico muito reservado, foi transferido para o São João com prognóstico reservado; Fernando Lopes Tomé também está em Santa Maria com prognóstico reservado. É este o ponto de situação dos nossos bombeiros", indicou Jorge Gomes.

Já o secretário de Estado da Saúde esclareceu como foi o socorro do bombeiro Rui Rosinha, que Teresa Morais disse ter estado dez horas a deambular pelo país até ser internado.

"O bombeiro foi transportado para o Centro de Saúde de Castanheira de Pera, que, de acordo com as condições, era aquele que localmente podia oferecer a melhor resposta do ponto de vista da proximidade versus capacidade de resposta. No local foi atendido por uma equipa do INEM, uma VMER do Hospital do Médio Tejo, e foi estabilizado. Foi depois transportado para a Prelada", informou Fernando Araújo, explicando que verificaram-se dificuldades operacionais, que impediram a aterragem do helicóptero do INEM e consequente transporte para o hospital.

"Mais do que a velocidade do transporte do doente, interessa-nos muito mais estabilizar e transportar de forma adequada. Transportar de forma apressada pode prejudicar o prognóstico do doente. Foi isso que foi feito: estabilizá-lo, clinicamente torná-lo o mais adequado para fazer o helitransporte e, depois, conseguirmos condições operacionais para o fazer", acrescentou.

No seguimento desta explicação, Teresa Morais distribuiu uma declaração de internamento de Rui Rosinha, que lhe foi entregue por familiares e que davam conta da sua hospitalização dez horas depois de ter sido observado pela primeira vez.

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