O dirigente socialista Sérgio Sousa Pinto acusou esta quarta-feira o Governo português de ter sido mobilizado pelos «atuais donos da Europa» para fazer «o trabalho sujo» de tentar humilhar e encurralar a Grécia no último Eurogrupo.

Sérgio Sousa Pinto, membro do Secretariado Nacional do PS e presidente da Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros, falava em plenário, na Assembleia da República, numa intervenção contundente contra a linha política seguida pelos governos ibéricos face à Grécia e que depois deu origem a um debate no mínimo invulgar.

Na perspetiva do dirigente socialista, os governos de Portugal e de Espanha «foram mobilizados para atacar, humilhar, sabotar os esforços gregos que, a terem sucesso, serviriam seguramente a portugueses e espanhóis, mas prejudicariam os interesses eleitorais do PSD e dos PP ibéricos».

«Fazer no Eurogrupo o trabalho sujo dos atuais donos da Europa, encurralando a desesperada Grécia, é uma torpeza e uma indignidade que os portugueses não merecem do seu invertebrado Governo», declarou Sérgio Sousa Pinto.

Sérgio Sousa Pinto fez ainda uma alusão ao «reconhecimento pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), pela Comissão Europeia, e pelo Parlamento Europeu da estupidez intrínseca da austeridade fanática e descontrolada, indiferente aos seus contraproducentes efeitos».

«Boas notícias para Portugal e para o castigado povo português, mas péssimas notícias para o Governo de Passos e Portas», concluiu o deputado do PS.

Perante este estilo de discurso, numa nota de humor, o dirigente do CDS Telmo Correia observou que o «senhor deputado [Sérgio Sousa Pinto], sem gravata e com a fralda da camisa de fora, dava um Syriza razoável».

Telmo Correia deixou depois um conjunto de questões ao membro da direção do PS: «O senhor deputado subscreve o comunicado do PASOK (socialistas gregos) sobre o fim humilhante das ilusões criadas pelo atual Governo grego do Syriza. O senhor deputado é socialista ou é bloquista?».

A resposta de Sérgio Sousa Pinto a Telmo Correia foi dura: «Vi-me grego para encontrar um mínimo de honestidade e de inteligência nas suas perguntas».

«Disse uma série de pantominas a favor de um Governo do PSD que vos maltrata», completou o deputado do PS, dirigindo-se ainda a Telmo Correia.

O mesmo registo teve também o deputado do PS em relação ao social-democrata Costa Neves, que momentos antes falara no facto de Portugal ter juros a dez anos inferiores aos dos Estados Unidos nos mercados internacionais.

«Isso é alucinação ou estupidez pura. É o BCE (Banco Central Europeu) e o excesso de liquidez que explicam os níveis dos juros de Portugal. Parem de aldrabar», disse Sousa Pinto, elevando o tom de voz.

Perante as restantes forças da oposição de esquerda, o estilo de resposta de Sérgio Sousa Pinto variou entre a contundência, o humor e alguma desatenção, como quando chamou a Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, primeiro «Luís Filipe Soares» e depois «Luís Pedro Soares».

António Filipe (PCP) disse estar de acordo com a crítica que o socialista fizera «ao seguidismo acéfalo» do Governo português na última reunião do Eurogrupo.

Mas, segundo António Filipe, ficou por saber «qual a posição do PS perante questões centrais no caminho da União Europeia».

Sérgio Sousa Pinto reagiu dizendo que o PS recusa o modelo de «uma Albânia isolada».

A deputada do Partido Ecologista «Os Verdes» Heloísa Apolónia perguntou a Sérgio Sousa Pinto se falava em nome do PS ou apenas em nome pessoal.

O socialista respondeu imediatamente: «No PS ainda não atingimos um estado de osmose tão perfeito como o que existe entre o PCP e os Verdes».