A situação na Grécia foi transversal aos dois debates que ocorreram no Parlamento, esta sexta-feira - o quinzenal e o de preparação para o próximo Conselho Europeu do dia 25 e 26 de junho. No primeiro, o PS quis saber que propostas e contrapropostas estiveram efetivamente em cima da mesa no último Eurogrupo para resolver a crise grega. O primeiro-ministro só respondeu já decorria o segundo debate, sem levantar o véu. O líder parlamentar do PS insinuou, depois, que "dá a sensação que Portugal quer que solução grega corra mal".

O chefe de Governo disse que, "com a reserva natural que estas questões merecem - é o Eurogrupo que conduz o resultado final das negociaões que têm tido lugar» e que "não há dúvida que ao longo destes meses não nos temos aproximado de uma solução". 

Segunda-feira há já uma reunião extraordinária do Eurogrupo a ver se é desta que há uma solução definitiva para Atenas e a "expectativa" do Governo português gostaria de ter é a de chegar ao Conselho Europeu, três dias depois de não haver "qualquer rompimento" entre Grécia e os credores. 

Ferro Rodrigues ficou "dececionado" com a intervenção de Passos Coelho sobre a crise grega:  "O PSD quer que PS se pronuncie [sobre o que antecipa o cenário macroeconómico no caso de um colapso grego em termos de impacto para Portugal], o primeiro-ministro diz que o que se discute no Eurogrupo lá fica no Eurogrupo. Tem obrigação de nos dizer o que separa o Governo e a troika".

"Colocam a questão da grécia como instrumental para o debate político interno" e não como uma preocupação verdadeira. "Até dá a sensação que querem que as coisas corram mal"


Passos Coelho recusou depois, já no final do debate, tratar o tema como se fosse "um filme de comentário das posições do governo grego e do Eurogrupo" e que não é ele que conduz as negociações. "O senhor, que já foi ministro de um Governo, escusa de fingir estar surpreendido por estas regras", respondeu a Ferro Rodrigues.

"Aquilo que se está a passar na Grécia é grave. É inquestionável que a Grécia viu deteriorar as suas condições macroeconómicas", sublinhou.

Disse também que já foi emprestado a Atenas muito, muito dinheiro e que, mesmo apesar disso, a situação de pré-bancarrota é assumida pelo ministro das Finanças grego e pelo primeiro-ministro.

"A lógica de que a Grécia está assim porque há uma chantagem, uma arrogância e uma provocação das 18 democracias europeias e das suas instituições só pode ser uma caricatura de mau gosto. Não confundo os governos com os povos, e não deixo de respeitar todos os governos que são eleitos pelas sociedades democráticas. Não há governos que precisem de ser mais respeitados do que outros". 


Antes, Jerónimo de Sousa disse que "a chantagem, a pressão e a arrogância ultrapassaram os seus limites" nas negociações europeias com Atenas. "E o senhor e o seu Governo a fazer coro", disse a Passos Coelho.

"A vossa determinação é fazer humilhar e ajoelhar um povo. É a chamada vacina grega, dê para onde der...", concluiu. 

O Bloco de Esquerda também deixou palavras nesse sentido: "Os senhores são irresponsáveis que estão a atear o fogo sobre a Europa. Neste momento, o que é preciso é a sensatez de defender as pessoas de um sistema financeiro que afunda a Europa".

Heloísa Apolónia, d'Os Verdes, disse que a "chantagem" que as instituições estão a fazer é ao povo da Grécia e que é "triste" o que está a acontecer. A deputada acusou a UE de querer "autoprovar-se aos povos" e que o lema é: "Não não, isto é como nós queremos e qualquer alternativa que o povo apresentar, não é aceite. Isto está tudo subvertido. Qual solidariedade, qual quê". 

No debate quinzenal, Passos Coelho garantiu que  "Portugal não será apanhado desprevenido" com o abalo grego, caso o pior cenário venha a acontecer: a saída de Atenas do euro. 


Temas para o Conselho Europeu


Passos Coelho disse que Portugal também defende um Fundo Monetário Europeu, "com responsabilidades e instrumentos para capacidade orçamental fundada em recursos próprios" e que se deve "completar" a união bancária e "produzir uma verdadeira união financeira".

"Parece-me que em face da situação que se está a viver, é indispensável procurar uma solução mais robusta, institucionalmente mais resiliente para a zona euro. Podemos estar muito melhor nos próximos anos se andarmos mais depressa na completude deste quadro institucional"


O problema da imigração ilegal foi outro dos temas destacados pelo primeiro-ministro e muito sublinhados pela oposição, como o Bloco de Esquerda que disse que "lágrimas de crocodilo" não valem, é preciso resolver mesmo a situação.

Passos Coelho deu conta que Portugal levará uma posição de abertura em relação à proposta da comissão europeia sobre os fluxos migratórios.

No entanto, o número de refugiados e imigrantes que Portugal pode receber não gera consenso com a Europa. "Estamos com condições de receber mais", mas isso deve ser feito em função do crescimento da economia. Por isso, o Governo defende um "equilibrio mais razoável" na proposta que foi apresentada pela Comissão Europeia.