O debate sobre o Estado da Nação, que decorreu esta sexta-feira, ficou marcado pelo uso de figuras de estilo, na troca de elogios e acusações entre o Governo e as bancadas da Assembleia da República. 

António Costa abriu as hostilidades e começou por usar a repetição. O tema era a emigração jovem e o primeiro-ministro disse que "para evitarmos que os jovens emigrem, temos que acabar com a precariedade", sob aplausos das bancadas à esquerda voltou a repetir: "estão a gostar? Então vou repetir: para evitarmos que os jovens emigrem, temos que acabar com a precariedade". 

O Velho, o rapaz e o burro

Quem parece não ter gostado desta história foi o CDS. Telmo Correia começou a intervenção a realçar que o primeiro-ministro apareceu num espírito de fábula por trazer "António Costa no país das maravilhas". O deputado centrista voltou a socorrer-se das fábulas para atacar o governo PS de Sócrates: "diz que o PS não é a carochinha à procura do João Ratão, o mesmo não podemos dizer do governo anterior do Partido Socialista, a ter que escolher uma fábula seria mais a raposa e o galinheiro". 

Vossa excelência veio aqui hoje num espírito de fábula. Vossa excelência trouxe-nos aqui, mais uma vez, António Costa no país das maravilhas", disse Telmo Correia.

Para terminar a intervenção, o deputado do CDS contou mais uma fábula a António Costa. Telmo Correia não acredita que a metáfora para este Governo seja a história da Carochinha, mas sim a fábula do velho, do rapaz e do burro. O centrista escusou-se a assumir o papel de encenador e não distribuiu os papéis pela geringonça, justificando-se pelo facto de não "querer ser desagradável". 

A história do seu Governo, a ter que escolher uma fábula, eu digo-lhe qual é: é o velho, o rapaz e o burro", afirmou de forma irónica o deputado do CDS.

A explicação para a opção por esta metáfora é justificada por uma anáfora: "ora cavalga um, ora cavalga o outro, ora é um que está a montar e ora que é o outro que está a montar. Vão montando à sua vez e no fim acaba tudo igual ou pior do que o que estava", concluiu Telmo Correia. 

Antes de terminar, e já com um aviso de tempo excedido por parte da mesa da Assembleia, o centrista quis deixar a moral da história porque "sem moral não há história que termine". A ilação que Temo Correia queria que os deputados não era uma fábula, mas sim um provérbio: "cada cabeça, sua sentença". 

É verdade que não há história sem moral, mas pôr a moral dentro do tempo da história ajudava um bocadinho", ironizou o vice-presidente da Assembleia da República, José Carlos Monteiro.

Geringonça: uma história de amor

António Costa deu início à troca de "recados amorosos" entre o Governo e os partidos que o suportam. O primeiro-ministro elogiou o papel que os partidos, em conjunto, desempenharam para a recuperação económica e faz "juras de amor" à geringonça. Questionado por Jerónimo de Sousa sobre se queria continuar no "caminho da esquerda", Costa citou o líder comunista: "queremos continuar com a companhia de quem esteve connosco nos dois últimos anos e meio."

Da bancada mais à esquerda, Pedro Filipe Soares tocou no coração da geringonça. O deputado comunista perguntou a Costa se a geringonça está no coração do Partido Socialista. O primeiro-ministro não fez tardar a resposta e confirmou que a geringonça está, não só na coração, mas também na cabeça do governo.

Quem não acredita neste amor é o PSD. Adão Silva tomou a palavra e disse que a geringonça e o governo iam "andar aos encontrões” durante o debate. A verdade é que, apesar de pequenos desencontros ao longo do debate, os partidos à esquerda pareceram limar arestas para garantir a saúde da solução governativa.

O debate terminou com uma referência a Luís Vaz de Camões. Gabriela Canavilhas abordou "a nostalgia de 2011 que persegue que Fernando Negrão" e por isso lembrou Camões:"a cativa que o tem cativo porque nela vive, já não quer que viva". A deputada socialista terminou com uma mensagem destinada ao líder da bancada social-democrata: "abrace o futuro, liberte-se senhor deputado".