O ex-coordenador do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, considera que ainda que as sondagens apontem para uma vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições presidenciais, esta não está garantida à primeira volta, pelo que o candidato não deve continuar a exibir traços de “arrogância” como nos últimos dias.

Na segunda de uma série de entrevistas com ex-candidatos às eleições presidenciais no “Jornal das 8” e “21ª Hora”, Francisco Louçã disse que se a vitória de Marcelo realmente acontecer na primeira volta será tanto pela sua estratégia, como pelo demérito dos outros candidatos, nomeadamente pela “desistência” do PS.

“Se essa for a decisão da democracia, não é seguro que seja, [porque] mesmo as sondagens que dão essa vitória na primeira volta a Marcelo Rebelo de Sousa são muito aproximadas da fasquia dos 50%. (…) Marcelo Rebelo de Sousa partiu muito à frente de todos os outros [candidatos]. Com uma consolidação política maior [e depois] o PS desistiu da campanha eleitoral - ao procurar pôr todo o seu empenho numa candidatura de alguém que deu esperança de vir a ser candidato.”


Louçã refere-se a António Guterres, que, na sua opinião, foi uma das razões para que o PS tenha optado por não apoiar nem Sampaio da Nóvoa, nem Maria de Belém, não tomando partido numa “guerra” que só pode ser “incompreensível para os eleitores do Partido Socialista”.

“A divisão do partido Socialista e, talvez, uma desilusão com o pouco impacto de um candidato cuja notoriedade era muito pequena – Sampaio da Nóvoa – levou António Costa a fazer uma coisa que o PS nunca tinha feito até agora, que é não apoiar nenhum candidato. (…) Não o fazendo dá um sinal de desgosto em relação a António Guterres, de orfandade em relação à candidatura, de perceção da divisão…  (…) Para os eleitores do Partido Socialista penso que é incompreensível a guerra entre Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, seria muito mais natural que um desistisse para o outro.”

 
Ainda assim, Louçã acredita que o primeiro-ministro não ficará “muito preocupado” se nenhum dos candidatos associados ao PS conseguir vencer. Mas, se Marcelo ganhar realmente, a culpa vem de outra estratégia do PS: a de o ter tentado associar a Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho.

“O PS desistiu e dá por certo que Marcelo Rebelo de Sousa vence as eleições, e creio que António Costa mostra não se sentir muito preocupado com o convívio com um Presidente como Marcelo Rebelo de Sousa. (…) Marcelo partiu com um grau de notoriedade, de conhecimento e de simpatia muito grande. Os seus adversários cometeram um erro muito elementar, na minha opinião, que foi tratá-lo exatamente como uma continuidade de Cavaco Silva e como o agente de Passos Coelho e de Paulo Portas para uma desforra eleitoral. Ninguém no país vê Marcelo Rebelo de Sousa assim. Veem-no, pelo contrário, como um anti-Cavaco (…) e vê-lo como uma mão de passos Coelho é muito difícil.”

O erro de Marcelo Rebelo de Sousa? Para o ex-candidato presidencial do Bloco é a sua recente “arrogância” e a decisão de não fazer campanha.


“O problema é que ele demonstrou, particularmente nos últimos dias, algum laivo de arrogância ao dizer : ‘daqui a umas semanas estou sentado em Belém’. Ao mostrar que não precisa, ou que não quer, fazer campanha eleitoral e, isto não é muito sério para as pessoas. Não é muito respeitador das pessoas, que querem um candidato que não esteja só a divertir-se, mas que esteja a responder pelas dificuldades.”

 
Sobre a candidata do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã é muito claro: Marisa Matias é uma deputada com um currículo extraordinário – a melhor eurodeputada, para o ex-coordenador o partido – e alguém que traz “alegria” a uma campanha com “gente muito triste”.

“Tem um currículo extraordinário, é a melhor deputada europeia, é muito respeitada [no Parlamento Europeu], vista como uma deputada de grande nível. É imensamente trabalhadora e tem uma capacidade de comunicação e simpatia enorme. (…) Tem levantado problemas interessantes, (...) [e], essencialmente, numa campanha com gente muito triste, traz um raio de alegria.
 

 

“Contas do Banif foram falsificadas”


Durante a entrevista, Francisco Louçã referiu-se, também, à recente crise no banco Banif, que precisou da intervenção do Estado - o que vai ter custos para os contribuintes - tendo considerado  que toda a questão foi mal resolvida, e que as “contas” foram “falsificadas”.

“Na minha opinião as contas estão falsificadas. Há um esforço enorme por parte do Banco Central Europeu (BCE) para impor uma recapitalização do Santander, é um enorme favor ao Santander, aliás, afastou todos os adversários, [e] impôs um valor exorbitante de refinanciamento do Banif que não tem nenhuma justificação. As contas foram excessivas em relação às necessidades de capital do Banif, que tinha naturalmente que corrigir os seus problemas – devia dinheiro ao Estado e não estava a conseguir pagá-lo – mas era uma diferença de umas centenas de milhões de euros, não era de três mil milhões de euros.”


A primeira opção do Governo de António Costa - evolvendo a Caixa Geral de Depósitos - teria sido mais favorável, acrescentou Louçã.

“A decisão foi incorreta. Creio que o Governo tinha uma boa solução de integração na Caixa Geral de Depósitos - tinha que trabalhar melhor para recompor o banco e não carregar a CGD de problemas de capital – mas era uma melhor solução, que podia impor, mesmo que as autoridades europeias não gostassem dela.
 
 

“Na política não se passam cheques em branco”


Sobre a solução encontrada para a formação do novo Governo socialista - cujo programa foi aprovado o apoio do BE, PCP e PEV - Louçã disse acreditar na durabilidade do novo Executivo. Porém, ressalva que com o voto contra no acordo do Banif, estes partidos deixaram já claro que não vão aceitar medidas como um novo aumento de impostos.

“Os partidos que apoiam o Governo têm de ser muito fiéis aos seus compromissos, e creio, por isso, que fizeram bem em voltar contra o acordo sobre o Banif. (…) Era o último Orçamento do Governo PSD/CDS, mas foi também um sinal de que esses partidos não vão aceitar um aumento de impostos se vierem dizer, um dia, a Portugal, que é preciso voltar a preencher um buraco bancário. (…) Na política não se passam cheques em branco.”