Ferro Rodrigues lamenta que o primeiro-ministro não tenha abordado, na sua intervenção inicial no debate quinzenal, o plano Juncker, as medidas do BCE e as eleições gregas.

«Quando o vento sopra em direção contrária aos ventos dominantes nos últimos anos, o primeiro-ministro não faz qualquer referência ao que se passou na União Europeia nas últimas semanas. Mostra que se sente bem com uma determinada UE e se sente em dificuldades quando ela começa a mudar».


Para o líder parlamentar do PS, «é lamentável» que um primeiro-ministro de um país que «depende fortemente do que se passa na Europa e tenha que influenciar a Europa», não tenha «uma única palavra para as mudanças tão importantes que se estão a passar».

Na resposta, Pedro Passos Coelho considerou «normal» que o primeiro-ministro português queira falar no parlamento de Portugal sobre o seu país. 

«É muito sintomático que alguns partidos aproveitem muito os eventos externos para não falar de Portugal e do que pretendem ou propõem. É sintomático que falem mais da Europa do que de Portugal».


Sobre a Grécia, o primeiro-ministro aligeirou o discurso em relação à sua primeira reação à vitória do Syriza, quando acusou o partido de Alexis Tsipras de ter ganho com um programa que é «um conto de crianças».

«Desejo que a Grécia feche o seu programa de resgate, qualquer que seja o governo grego. Respeitamos as decisões soberanas de todos os Estados e lembramos que todos os Estados merecem respeito».


Citando a ex-líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, Ferro Rodrigues sublinhou então que «a política de ortodoxia fanática foi derrotada na Grécia e vai ser derrotada em Portugal».

Passos contestou que a vitória do Syriza signifique «um estrondoso fracasso das políticas de austeridade» e apelou ao PS para clarificar a sua posição.
 

«As políticas de austeridade foram necessárias para a consolidação orçamental e produziram, em Portugal, na Irlanda e até na Espanha, a capacidade de fechar os programas e de termos a economia a crescer. Temos crescimento e regressamos aos mercados, então o que seria um sucesso para o PS? Pedir outro resgate?».


Ferro Rodrigues acabou por admitir que o PS «não está de acordo com algumas medidas populistas» do novo governo grego, mas destacou: «Mais perigoso do que isso é a tentação dos falcões europeus de fazer da Grécia uma espécie de vacina contra qualquer vontade de mudança».

Mais tarde, em resposta ao PSD, o primeiro-ministro não aceitou vir a ser responsabilizado se «algum desastre» acontecer à Grécia.

«Não aceitamos, portanto, hoje, esta teoria que é um pouco difundida em certos meios de que, se algum desastre vier a acontecer à Grécia, isso não se deve ao que o Governo grego quererá ou não decidir, deve-se à falta de responsabilidade da Europa. E quero, no que respeita ao Governo português, descartar mesmo qualquer acusação nesse sentido. Não aceito que se venha dizer que, se alguma coisa não correr bem na Grécia, é porque os governos europeus ou a Comissão Europeia não aceitam as propostas do Governo grego».


Passos Coelho alertou então os gregos que «somos adultos para escolher», mas também para assumir «as consequências das responsabilidades das nossas decisões».

Durante o debate quinzenal desta sexta-feira no Parlamento, Passos Coelho destacou os dados da execução orçamental, admitindo que «a austeridade está a ganhar menos relevância», mas avisando que ninguém poderá «aligeirar as preocupações com a consolidação» das contas públicas.

O primeiro-ministro suavizou o discurso sobre a vitória do Syriza na Grécia, mas adiantou que não aceita uma conferência europeia para debater a reestruturação da dívida

O momento mais «quente» do debate ocorreu quando se discutiam os cortes na Saúde. A discussão entre Passos Coelho e as deputadas do Bloco de Esquerda foi mediada por Assunção Esteves.