A eurodeputada Ana Gomes acusou esta segunda-feira as autoridades gregas de bloquearem há três meses a recolocação de 470 refugiados yazidi que querem ser transferidos para Portugal e contam com a disponibilidade do Governo português.

Não é das autoridades portuguesas o entrave, não é dos canais europeus da EASO (Gabinete Europeu de Apoio em matéria de Asilo). (…) Há um bloqueio ao nível intermédio na Grécia que explica que há três meses a situação se prolongue. E não pode continuar”, disse a eurodeputada.

Ana Gomes falava à Lusa após uma conferência de imprensa conjunta com o eurodeputado austríaco Josef Weidenholzer, com quem a eurodeputada portuguesa tem trabalhado para agilizar o processo de recolocação de refugiados na Europa.

Na conferência de imprensa participou também o médico yazidi Mirza Dinnay, que trabalha na Alemanha para resgatar raparigas e mulheres desta comunidade minoritária das garras do grupo extremista Estado Islâmico, e também Lamya Taha, uma jovem de 18 anos que em abril conseguiu fugir a este grupo ao fim de 20 meses de cativeiro.

No final de uma reunião, hoje de manhã, com o ministro-adjunto Eduardo Cabrita e com a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Catarina Marcelino, Ana Gomes confirmou o que já sabia: “A total disponibilidade do Governo português para receber, em particular, este primeiro grupo de 470 yazidis que nós localizámos no campo de Idomeni [na Grécia] e que há três meses estamos a tentar que venham para Portugal”.

Apesar da vontade dos próprios refugiados e das autoridades portuguesas, “as autoridades gregas, com imensos procedimentos muito burocráticos, de pré-registo e de registo, estão a complicar o processo”, afirmou a eurodeputada.

Questionada sobre como se desbloqueia este entrave, Ana Gomes explicou que após a visita a Portugal, os eurodeputados vão “prosseguir no plano grego”.

Percebemos que da parte dos gregos há uma vontade de não privilegiar ninguém, mas não se trata de privilegiar ninguém”, afirmou a eurodeputada socialista, lembrando que o processo de recolocação dos cerca de 50 mil refugiados atualmente na Grécia tem de ser iniciado por algum lado.

Se tem de ser iniciado por algum lado, pode ser iniciado por aqueles que estão em maior situação de vulnerabilidade”, disse.

O médico Mirza Dinnay explicou que a comunidade yazidi, que tem 5.000 anos de existência, é um grupo religioso independente que vive no norte do Iraque é discriminado por não ser muçulmano.

Em 2014, o ISIS capturou cerca de 6.000 mulheres e crianças yazidi, entre as quais a jovem Lamya Taha e a sua família.

Como os yazidi têm outra religião, o ISIS trata-os como infiéis. Venderam as mulheres e crianças, mataram os homens e as mulheres mais velhas, as raparigas e crianças”, exemplificou.

Como não são muçulmanas, as mulheres são usadas como escravas sexuais pelos combatentes do ISIS, enquanto as crianças são doutrinadas e escravizadas.

Atualmente, estima-se que cerca de 3.400 mulheres e crianças ainda estejam sob o domínio do Estado Islâmico, enquanto milhares de outros membros da comunidade estão deslocados no norte do Iraque, numa zona do Curdistão, “a viver em tendas muito primitivas, sem perspetivas de futuro”.

Muitos fugiram do Iraque, dos quais cerca de 4.700 estão atualmente na Grécia, nos campos de refugiados de Idomeni.

No entanto, explicou Yazidi Mirza, mesmo os que estão nos campos de refugiados são discriminados pela comunidade muçulmana.

Estão muito vulneráveis e vivem situações perigosas, mesmo na Grécia. Há ataques e violência contra eles. Dizem-lhes que são infiéis porque não são muçulmanos. São uma religião antiga da mesopotâmia”, explicou.

Os refugiados muçulmanos querem forçar os Yazidi a jejuar no Ramadão e há relatos de discriminação, havendo mesmo um caso de suicídio de uma jovem Yazidi num campo de refugiados.

Na conferência de imprensa, depois de contar como foi torturada, violada, espancada, vendida várias vezes e obrigada a fabricar bombas para o Estado Islâmico, Lamya Taha deixou um apelo à comunidade internacional: “Espero a libertação do resto das mulheres e jovens ainda em cativeiro e que as mulheres e jovens já libertadas sejam acolhidas, porque a situação é muito má”.