O antigo presidente da República Mário Soares afirmou esta segunda-feira que «neste momento não há direitos humanos» em Portugal porque o Governo tem pensado apenas no «dinheiro e nos mercados» e «nunca falou com o povo».

Numa conferência organizada pela Amnistia Internacional (AI), em Lisboa, o ex governante afirmou: um «Governo que só pensa no dinheiro e nos mercados é evidente que só pode fazer asneiras e é o que tem estado a fazer».

Segundo Mário Soares em três anos e meio de governação da coligação PSD/CDS-PP, «nunca se pensou em direitos humanos».

«Direitos humanos, onde é que eles estão ?», questionou Mário Soares, garantindo que «neste momento não há direitos humanos em Portugal» e que a «grande maioria do povo não tem dinheiro para comer e os seus filhos vão ao caixote do lixo».

Lembrando viver-se uma crise europeia e a austeridade imposta «pela senhora [Angela] Merkel», Mário Soares citou o Papa Francisco para referir que a «austeridade mata».

«Mais austeridade e lá vamos nós perder muitas pessoas. A quantidade de gente inteligente que desapareceu das universidades», comentou o socialista, lamentando as situações ¿dificílimas¿ de cientistas e professores.

Para o antigo primeiro-ministro e Chefe de Estado «a grande maioria do povo português está contra o executivo», que «nunca dialogou com ninguém».

«Este Governo nunca falou em direitos humanos, como nunca falou com o povo, desde o Presidente da República aos membros do Governo», notou Mário Soares, justificando essa ausência com os governantes atuais «serem vaiados cada vez que saem à rua».

«Não podem sair à rua e nunca se viu uma coisa assim no país», comentou.

Na sua intervenção, o antigo dirigente político resumiu que a União Europeia vive a «maior crise vivida até hoje, que é da responsabilidade da chanceler Merkel e de outros dirigentes da zona europeia que a ela têm obedecido».

«Tornaram-na ao que parece dona dessa mesma zona euro, mas não é com certeza dona», argumentou Mário Soares para quem a «democracia, o Estado social e os direitos do homem no atual contexto europeu e português pelas ruas da amargura».

Na origem da situação social está o desaparecimento dos partidos que fundaram a União Europeia: os «sociais-democratas ou socialistas e os democratas cristãos».

«Os partidos desapareceram e foram substituídos por partidos exclusivamente populistas e que às vezes se tomam por sociais-democratas, como é o caso português», afirmou.

Questionado depois da conferência acerca da saída limpa do programa de resgate financeiro, Mário Soares respondeu apenas que o «importante é que este Governo saía», como escreve a Lusa.