O secretário-geral do PCP considerou a entrevista do empresário Soares dos Santos ilustrativa do desejo do «capital» de «recuperar as parcelas de domínio» perdidas na Constituição pós Revolução e de conseguir uma aliança PSD/PS.

Num discurso proferido no final do almoço de Natal organizado, no parque de campismo do Entroncamento, pela direção regional de Santarém do PCP, Jerónimo de Sousa insurgiu-se contra a intenção do Governo de aprovar uma proposta de lei que visa «facilitar os despedimentos de forma inconstitucional».

«Tem um mérito a entrevista de hoje do segundo senhor mais rico de Portugal, que, arrotando milhões de euros, falando com o rei na barriga, vem dizer que é preciso é que o Estado deixe de se meter onde não deve», afirmou o líder comunista, realçando que foi esse mesmo Estado que «deu ajudas preciosas» à Jerónimo Martins, graças às políticas que favoreceram lucros à grande distribuição «assentes na ruína de milhares de pequenos comerciantes».

Referindo ainda os «lucros fabulosos» que resultaram da privatização da Galp, «empresa que sempre deu lucro e que foi entregue pelo Estado ao senhor Soares dos Santos», Jerónimo de Sousa lamentou que quem pôs o dinheiro «ao fresco na Holanda» venha agora, «com ar patriota, dizer que o Estado tem que se retirar de tudo».

O líder comunista considerou que «o mérito da entrevista» foi mostrar que Soares dos Santos «não vai desistir enquanto não vir PS e PSD fazerem um acordo por dez anos».

Sublinhando que a alternância governativa em que o país tem vivido, em que «ora governa o PS ora governa o PSD», está hoje «queimada perante o povo», Jerónimo de Sousa afirmou que a ideia de «juntar os dois» só não vingou ainda «porque cada um defende os seus interesses partidários».

O secretário-geral do PCP acusou o PS de estar numa posição de «quanto pior melhor» ao defender que o atual executivo governe até 2015 à espera que o «poder lhe caia no regaço».

«Cá estaremos para ver», afirmou, reafirmando a determinação do PCP de fazer «toda a luta possível para derrotar o Governo» e conseguir a convocação de eleições antecipadas.

Jerónimo de Sousa colocou entre as medidas que se inserem no ataque à Constituição as que visam facilitar os despedimentos e liquidar a contratação coletiva.

Para o líder comunista, as reações que se seguiram à declaração, durante a última visita da troika, de que o FMI defende um abaixamento dos salários no setor privado escondem a intenção de simplificar os despedimentos, transformando o patrão em «juiz em causa própria».

«E se conseguissem o alargamento dos conceitos para despedimentos conseguiriam impor baixos salários e conseguiriam, caso o direito da contratação coletiva seja liquidado, recuperar facilmente o que parece ser uma vitória, a de que o Governo está contra o corte dos salários», afirmou.

Jerónimo de Sousa prometeu um dezembro de «muitas lutas», porque «os problemas são muitos e as ameaças são reais», num partido que «está a crescer» e que resiste a «projetos sinistros de retrocesso civilizacional», que têm a ver com a independência e soberania de Portugal.