Após as declarações dos presidentes de Angola e Portugal, no Palácio de Belém, só dois jornalistas de cada país tiveram direito a colocar perguntas aos chefes de Estado. Na última delas, Cavaco Silva foi questionado sobre o processo democrático em Angola e Eduardo dos Santos em relação a um eventual compromisso para uma data de eleições presidenciais no seu país. O português não respondeu; o angolano disse que não sente falta de legitimidade e explicou que um escrutínio para o cargo que ocupa, só com uma nova constituição.

Seria talvez a questão mais sensível para o chefe de Estado português, que esteve sempre à-vontade nos temas económicos - chegou mesmo a dar uma lição abreviada sobre a actual crise mundial durante a resposta a um jornalista angolano que questionara o seu chefe de Estado sobre a segurança dos investimentos angolanos em empresas portuguesas. Ainda nessa área Cavaco exprimiu o desejo de que se estabeleça, entre os dois países, uma «verdadeira parceria estratégica».

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Eduardo dos Santos também apontou nesse sentido. Disse que as relações entre os dois países são «excelentes», porém, com um desafio: «Há muito que fazer». E por isso manifestou a necessidade de se «estabelecer um quadro financeiro que permita a expansão do investimento público e privado entre os dois países».

«Não sinto falta de legitimidade»

Negócios à parte, Cavaco Silva simplesmente passou a palavra ao seu homólogo angolano, quando foi instado a comentar o processo de democratização em Angola. Apesar de, anteriormente, na sua declaração, ter dito que «José Eduardo dos Santos desempenhou um papel muito importante para a paz, a estabilidade, a reconciliação dos angolanos».

Já o presidente angolano, que tinha sido questionado sobre se sente falta da legitimidade do voto e se se compromete com uma data para a realização de eleições presidenciais, não hesitou em responder.

No poder sem interregnos desde 1979, Eduardo dos Santos disse: «Eu não sinto falta de legitimidade». E explicou: «O meu nome foi o primeiro da lista de vários deputados que o MPLA apresentou às últimas eleições legislativas, em que o MPLA saiu vencedor com mais de 81 por cento dos votos. Portanto, enquanto chefe do executivo, pelo menos, sinto-me perfeitamente à-vontade».

Já no que diz respeito a uma data de eleições, o governante angolano disse que «é evidente que falta». A justificação para que não haja agenda deve-se, segundo apontou, à falta de um novo texto constitucional, que esteve a ser negociado - mas sem sucesso - antes das legislativas, realizadas em Setembro do ano passado. «As negociações foram inconclusivas», disse o presidente angolano, frisando que «o parlamento criou uma comissão constitucional que vai elaborar um novo texto da constituição».

Depois, esse texto será submetido à «consulta pública» e «após a sua aprovação pela assembleia nacional será a base para a realização das eleições presidenciais». José Eduardo dos Santos disse que pretende que haja um novo texto este ano, mas não apontou para quando um escrutínio com data marcada para o cargo que ocupa há 30 anos.