Sim, leu bem: vamos já fazer um balanço da campanha de Edgar Silva. Sim, eu sei que a campanha oficial só começou este domingo. Mas não há nada que os jornalistas gostem mais de fazer do que balanços: olhar para trás e dizer "então é assim...". E eu não fujo à regra. Portanto, tenham alguma paciência com esta humilde jornalista que submergiu na campanha presidencial no sábado e que vos diz que já é possível um balanço, mesmo com apenas 600 quilómetros de estrada e dois dias de viagem.

E cá vai: a candidatura apoiada pelo PCP escolheu o dia de sábado para palmilhar terras comunistas. Andou por Almada, Seixal, Pinhal Novo, Palmela, Barreiro. Ora, a margem Sul - como dizia um slogan antigo do PCP - é a "margem certa". 

E é a margem "certa" para o PCP que lidera as câmaras acima enumeradas e sabe bem que não há segundas oportunidades para criar uma boa primeira impressão, sobretudo perante as câmaras de televisão, os microfones da rádio e os teclados dos jornalistas, que no sábado passaram a integrar a caravana comunista e que lá vão andar até ao dia 22. 

Se viu a reportagem da TVI do dia pelo concelho de Setúbal, dir-me-á que a receção não foi apoteótica. E tem razão. Mas, caro leitor, não há nada de apoteótico nestas eleições presidenciais. 

Nesta "morna" e atípica corrida a Belém, digo-lhe que foi um bom início: mesmo com este tempo, que convida a tudo menos a arruadas, a máquina comunista local conseguiu umas três dezenas de apoiantes encasacados pelas ruas do Feijó. Trânsito cortado, bandeiras, uma faixa e um megafone e está feita a "festa" em torno da candidatura. É certo que um candidato como Jerónimo de Sousa conseguiria mais apoiantes no mesmo cenário de chuva, frio e muito vento - como conseguiu, aliás em 2006 (e também era Janeiro).

Mas, acredite, Edgar ganha militantes mais enérgicos a cada dia que passa. E no PCP tudo se joga nesse campo. Afinal, o eleitorado comunista é o mais fiel de todos, mas os resultados revelam que há, como é evidente, oscilações. Ainda para mais com uma eleição tão fulanizada como é, naturalmente, a eleição presidencial.

A verdade é que em eleições, os 15 dias de campanha oficial, que a comunicação social acompanha a par e passo, fazem muita diferença nos resultados do dia eleitoral.

Edgar Silva sofre de baixa notoriedade, mal de que não padecia Jerónimo de Sousa. Francisco Lopes, candidato em 2011, também não era popular junto do grande público, mas, dentro do Partido Comunista, não há quem não o conheça. Mas a questão – digo eu, que me deu para abrir a cabeça e deixar ao leitor espiolhar o que vai lá dentro (prometo que não se repete tão cedo) – é outra: é na reta final até ao dia E (de Eleições) que tudo pode mudar. E, quando muda, atenção, muda rápido. 

Basta ver o dia de hoje. No comício do Palácio de Cristal, no Porto, há um antes e um depois de um pequeno vídeo com a vida do candidato. A análise pode ser empírica, sem método científico, mas acreditem que fiz a experiência no local, com uma mão cheia de militantes de olhos postos nas telas gigantes que ladeavam o palco. 

Mesmo entre os que vão nas camionetas alugadas pelo partido até ao local do comício, foram vários que falaram à reportagem da TVI, e que admitiram que conheciam mal o “candidato”.
(Ndr.: sobre as camionetas, só um esclarecimento: não se juntam 4 mil pessoas só com uma convocatória: é preciso levá-las, de cada concelho das redondezas, até ao pavilhão. Mas não é prática exclusiva do PCP: todos o fazem. Sem exceção).

Mas voltando ao Palácio de Cristal: Edgar não teve casa-cheia, mas o recinto é grande para tal intento; a receção também não foi tão calorosa como seria de esperar (Jerónimo galvaniza os militantes, Edgar não). E aí, mais uma vez, não se trata do juízo que os militantes fazem do candidato, mas decorre da sua falta de notoriedade, explicada pelo simples facto de Edgar ser da Madeira, ser deputado regional e não nacional, e ter ainda um curto curriculum no PCP (só se tornou militante em 1998). 

E, claro, com menos de 3% nas sondagens ninguém acredita na vitória, o objetivo é apenas um: conseguir uma segunda volta; ou seja, dificultar a vida a Marcelo Rebelo de Sousa, o único alvo de todos os ataques.

Ah, mas o vídeo. O vídeo com uma pequena biografia do candidato, que passa antes das intervenções no palco, mostra o trabalho do "padre Edgar" no Movimento de Apoio à Criança, que o próprio fundou, para denunciar a exploração sexual, a pobreza e o trabalho infantil na região. O então padre fez sua missão defender as "crianças das caixinhas", como eram chamados os menores que pediam esmolas aos turistas cidade no Funchal.

É um pequeno filme – mas muito eficaz – com fotos antigas, em que os cabelos não eram brancos, e a roupa era esquisita, com uma entrevista ao candidato que fala de si, do seu percurso e da sua obra na Madeira que, não por acaso, lhe valeu a eleição regional: foi candidato independente em 1996 pela CDU e conseguiu o melhor resultado dos comunistas (recorde-se que Alberto João Jardim governava com maioria absoluta o seu império insular). 

Mas mais do que isso: o vídeo está salpicado de testemunhos de homens e mulheres, que foram meninas e meninos na década de 90, as tais crianças de rua, resgatadas pelo padre que procurava nas instituições do Estado o apoio que considerava essencial para lidar com a miséria de muitas famílias e, revoltado, acabou a fazer pelas suas mãos o que o poder político não fez. 

Uma militante comunista dizia-me, no domingo, que a escolha da direção do partido foi a melhor. Mas isso é o que os comunistas dizem sempre... Ainda por cima depois de na semana passada o candidato ter escorregado duas vezes em dois debates sobre o mesmo tema: andou às voltas em discursos rebuscados quando a única resposta possível era: “Sim, a Coreia do Norte é uma ditadura. E, sim, eu repudio todos os atentados aos direitos humanos”. Não o fez, e fez figuras ao hesitar e titubear perante pergunta tão simples.

Vânia, que veio de Lordelo, uma freguesia de Guimarães, estava demasiado satisfeita com a prestação do candidato, com o ambiente e a música, para responder a provocações. Só me disse que “isso não interessa nada às pessoas. Na minha terra ninguém sabe onde isso fica”. 

Ok, Vânia, boa viagem para Guimarães. E, por falar, em viagem, tenho de regressar a Lisboa. O candidato viajou para a Madeira, foi jogar em casa, sob o olhar atento do correspondente da TVI Mário Gouveia, que esta noite terá a reportagem do dia.

Adivinho uma passeata pelas ruas onde as pessoas o conhecem pelo nome, e tem orgulho de ter um dos seus numa corrida presidencial. Com isso, Edgar Silva conseguirá, em apenas três dias, mostrar que se o quiserem conhecer talvez entendam melhor a decisão do PCP o ter escolhido para candidato presidencial. Pelo menos eu entendi.