Rui Machete, escolhido para ocupar o cargo de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, já trabalhou na SLN, sociedade gestora do BPN, mas essa passagem pela empresa foi omitida da sua biografia, enviada aos órgãos de comunicação social pelo gabinete do primeiro-ministro.

O histórico social-democrata, de 73 anos, deverá tomar posse esta quarta-feira, no Palácio de Belém, mas as posições sobre a sua nomeação divergem. O PS optou por não comentar diretamente a escolha, já o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, António Monteiro, considerou que esta era uma «solução otima». Também o politólogo Adelino Maltez defendeu que Machete vinha dar «sabedoria» ao Governo.

Na SLN, Machete presidiu ao Conselho Superior, onde estão representados os accionistas, um lugar que garante poder de fiscalização.

Mas além da passagem pela SLN, da biografia «desapareceram» também as ligações ao BPP: enquanto ex-presidente da Fundação Luso-Americana, Rui Machete esteve ligado ao Banco Privado Português (BPP), onde foi membro também do Conselho Consultivo, e onde adquiriu cerca de 3% das acções, investimento que a FLAD perdeu quando o banco declarou falência.

Enquanto ex-presidente do Conselho Superior da SLN, Machete foi chamado à primeira comissão de inquérito parlamentar sobre a nacionalização do BPN, onde revelou que o ex-primeiro-ministro José Sócrates deu aval à venda do banco a angolanos, através da Carlyle.

Em Abril de 2009, na comissão de inquérito, Rui Machete disse que nada sabia em pormenor do que se passava no BPN. «Pelo conselho superior, os seus membros não tinham um conhecimento minucioso do que se passava no banco. Houve um ponto que me impressionou negativamente que foi a circunstância de nos seus relatos o banco se apresentar um pouco como um one man show».

Citado pela Renascença, o coordenador político do Bloco de Esquerda já criticou a nomeação de Rui Machete como ministro, devido à sua passagem pelo conselho superior do grupo BPN/SLN.

«Uma palavra de protesto pela escolha de Rui Machete. Rui Machete foi, durante muitos anos, presidente do conselho superior do grupo BPN/SLN, teve um posição de grande responsabilidade, muito proximidade ao que se verificou naquele grupo e que nós todos hoje sabemos, até porque estamos a pagar muitos milhões de euros que as fraudes sucessivas no grupo BPN/SLN provocaram», afirma João Semedo.

Para o líder bloquista, trata-se de «uma escolha de muito mau gosto» e o «Presidente da República ao aceitar a nomeação e Pedro Passos Coelho ao propor o nome de Rui Machete, mostram arrogância e displicência relativamente aos portugueses, à opinião pública».



«Pode-se falar de falta de vergonha nesta escolha. O passado de Rui Machete não recomenda nem aconselha a sua nomeação», conclui João Semedo.

Em Julho de 2011, o Bloco de Esquerda já tinha considerado «lamentável» a escolha de Rui Machete para vice-presidente da mesa da assembleia geral da Caixa Geral de Depósitos (CGD), devido à sua passagem pelo sociedade gestora do BPN.