O antigo ministro socialista das Obras Públicas João Cravinho, uma das 70 personalidades que assinou um manifesto a apelar à reestruturação da dívida pública, considerou esta terça-feira que essa é a única forma de Portugal sair da crise.

«Não se trata de apelar a qualquer atitude futura que não seja a de respeito pelas melhores práticas de rigorosa gestão das finanças publicas», afirmou em declarações à agência Lusa, sublinhando que essa questão é «absolutamente essencial».

No entanto, referiu João Cravinho, essa gestão tem de ser feita «de modo a criar condições para que haja crescimento e emprego, porque sem isso [Portugal] nunca sairá da crise».

O manifesto, hoje noticiado pelo jornal Público, é assinado por figuras da política de esquerda e de direita, como os ex-ministros das Finanças Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, Francisco Louçã, António Saraiva, Carvalho da Silva, Gomes Canotilho, Sampaio da Nóvoa, além de empresários e economistas, e pretende ser «um apelo de cidadãos para cidadãos», explicou João Cravinho.

«Trata-se de um apelo que se dirige a uma questão absolutamente decisiva para o nosso futuro que é preparar a reestruturação responsável da dívida para crescer sustentadamente com respeito pelas normas constitucionais com responsabilidade social e com democracia», avançou Cravinho.

O antigo ministro, que remeteu para quarta-feira a divulgação do documento, adiantou que o manifesto contém uma análise da insustentabilidade da dívida portuguesa sem a existência de crescimento sólido. «Mesmo que nos esfolem vivos» sem reestruturação a dívida não será possível o pagamento.

De acordo com João Cravinho, o manifesto inclui ainda «uma análise da oportunidade que, neste momento, existe para pôr na mesa a questão da preparação da reestruturação da dívida», numa altura em que se preparam eleições para o Parlamento Europeu e mudanças na Comissão Europeia.

«Vai haver, no contexto europeu, dentro de pouco tempo, uma série de propostas que vão ser analisadas mais tarde, lá para o fim do ano, princípio do ano que vem», lembrou João Cravinho, defendendo que «é preciso prepararmo-nos [e] sabermos o que queremos».

Embora as figuras que dão a cara pelo manifesto sejam de quadrantes muito diferentes, como tal, preconizem diversas ideias, João Cravinho assegurou que «há condições de base mínimas e um larguíssimo consenso» sobre a necessidade de «saber em que condições é que se pode fazer uma restruturação que seja efetivamente eficaz, que resolva os problemas» quer de Portugal, quer da Europa.

O antigo ministro socialista garantiu também não estar preocupado com a reação dos mercados a uma reestruturação da dívida, já que conhecem até melhor do que o comum dos portugueses, qual é a situação real do país.

«O que os mercados querem é que a dívida, o seu dinheiro e o seu investimento, sejam retribuídos e não tenham um problema sério de não cumprimento», considerou.

Para João Cravinho, «em Portugal, até as personalidades mais elevadas confiam no pensamento mágico», ou seja, acham que «se não falarmos do assunto, o assunto resolve-se, o que é, de facto, uma coisa absolutamente primitiva».

Mas a verdade, defendeu, é que os mercados «aceitarão e desejarão a reestruturação da dívida» desde que «haja enquadramento das instituições europeias e desde que o Banco Central Europeu esteja por detrás de Portugal e dos outros Estados-membros».