José Manuel Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia, defendeu esta quinta-feira em Lisboa que Portugal deve assumir uma relação «descomplexada» com Angola, frisando que eventuais «sobressaltos» são normais.

«Os sobressaltos são próprios das relações íntimas. A relação é boa mas não é perfeita, tem de ser descomplexada e mais assumida» e que venha a corresponder aos interesses dos dois países, disse Durão Barroso, que intervinha na conferência organizada pela Câmara de Comércio e Indústria Portugal – Angola, sem especificar casos.

«Em Portugal temos a tendência de ver Angola de uma perspetiva portuguesa, mas é interessante olhar para Angola de outra perspetiva. Olhar de fora», sublinhou Barroso acrescentando que as relações conheceram uma evolução nas últimas duas décadas.

Para Durão Barroso, Angola é hoje um «parceiro indispensável» da Europa nas questões do Golfo da Guiné e é essencial verificar que se trata de um país que «dá confiança» para conter a pirataria, o tráfico de droga e o terrorismo.

Segundo o ex-presidente da Comissão Europeia, a parceria tem sido «reclamada» pelos Estados Unidos, notando-se, afirmou, um incremento nas relações com Washington.

«Angola tem uma das Forças Armadas mais importantes e experimentadas na África subsaariana», disse o ex-presidente da Comissão Europeia e antigo chefe da diplomacia portuguesa, reforçando o papel do país em posições no contexto regional.

Durão Barroso referia-se objetivamente ao terrorismo na Nigéria e ao avanço do radicalismo do Islão; «na falta de consolidação» da República Democrática do Congo, nas ameaças transfronteiriças mas, sobretudo, ao Golfo da Guiné, «com a ameaça real da pirataria».

Angola tem tido também um papel relevante sobre as questões na Região dos Grandes Lagos, tendo também, frisou Barroso, «oferecido» Luanda como sede para a Comissão para o Golfo da Guiné.

Para Durão Barroso, Angola sendo membro da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla em inglês) tem resistido ao acordo de comércio livre com os Estados da região dando mais importância às ligações com Portugal, Brasil e China do que aos países vizinhos.

«Angola sabe que há uma posição dominante da África do Sul e não quer estar em segunda posição em relação à região para um dia integrar o ‘Economical Partnership Agreement’ numa posição de força», considerou.

«Os africanos quando falam de Angola falam como um país especial. Joga a sua influência na região mas, ao mesmo tempo, não se quer deixar fechar em quadros sub-regionais», reforçou.

Antigo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, no início dos anos 1990, Durão Barroso recordou também os acordos de paz de Bicesse que conduziram às realização das primeiras eleições livres em Angola, em 1992.

Finalmente, Barroso diz estar confiante de que Angola privilegia três pilares fundamentais: o Estado de Direito «porque sem Estado de Direito não há confiança; Educação “porque é a base de tudo» e a construção de infraestruturas «porque são necessárias», sobretudo para as relações com os países da região.

Sendo assim, sublinhou que Portugal – o maior investidor estrangeiro em Angola em áreas não petrolíferas – deve apostar também na ajuda à educação, «a todos os níveis escolares»; formação profissional, agricultura e setores como água e saneamento.

Presentes na conferência estiveram Miguel Frasquilho da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete.