O debate quinzenal desta sexta-feira foi o último de 2014. Altura para balanços, com um olho em 2015, ano de eleições. E foi isso mesmo que CDS-PP e PSD quiseram fazer, aproveitando para responsabilizar o PS pela herança que deixou ao país e enfatizando aquilo que os partidos da maioria que compõe o Governo consideram ser a falta de propostas, como é o caso da TAP e da PT, porque, entendem, os socialistas não dizem qual «o preço a pagar» para manter essas empresas.

Depois de o líder parlamentar do PS, Ferro Rodrigues, ter acusado do Governo de «irrealismo», «negação», e «efabulação», quando chegou a sua vez, os partidos da maioria quiseram responder à letra, fazendo questão de utilizar uma «linguagem marítima» para caracterizar o principal partido da oposição. Uma opção discursiva a propósito do «mexilhão», a imagem mais utilizado neste debate. «Essa dos crustáceos deu no senhor Teixeira dos Santos ir a Bruxelas pedir dinheiro», atirou o líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Magalhães. Luís Montenegro (PSD) aproveitou a deixa:
 

«Este PS é o PS de sempre, da irresponsabilidade financeira, do despesismo, do facilitismo, do troikismo, porque foi este PS que chamou a troika e hoje está com saudades dela». «Deixou o país à deriva e depois à beira do naufrágio». «É o PS de sempre». «O senhor deputado Ferro Rodrigues sabe bem do que fala e falou com toda a propriedade da negação e irrealismo. Foi um bom exercício»


O líder parlamentar do PSD continuou, comparando os anos da governação de José Sócrates, com os do atual Executivo: «Não é um oásis, senhor Ferro Rodrigues», mas «Portugal foi um exemplo de coragem no desenvolvimento». «Os dias que percorremos não foram fáceis. Foram difíceis. Mas quem está verdadeiramente em negação, porque não viu aquilo que fez quando foi governo e não vê o que o país tem conseguido fazer, agora que está na oposição, é o PS», argumentou.

O caso do IRS

Nuno Magalhães (CDS), por sua vez, também, aquilo que considera ser a «diferença de atitude» entre a maioria e o principal partido da oposição que, no caso do IRS, recusou consenso, apenas «na ânsia de discordar».  «No IRS queríamos dialogar, queríamos entendimento e, por isso, apresentámos propostas e tivemos humildade de ir de encontro às propostas da oposição, exceto uma, o coeficiente familiar. O que é que o PS fez na ânsia de discordar? Disse que era discriminação grave que não integrava famílias monoparentais, mas depois desapareceu esse argumento. É simples, é falso».

Passos Coelho corroborou: «Não percebo o voto contra do PS». Alegou que a reforma traz um processo de simplificação, mais progressividade e que é «mais justa».

Primeiro-ministro dá puxão de orelhas à oposição, sobretudo ao PS
 
Na reta final do debate, e respondendo à bancada parlamentar do CDS-PP, Passos Coelho irritou-se com a falta de atenção dos deputados da oposição, chegando mesmo a sugerir terminar a discussão por ali. Acabou por continuar.
 
A certa altura, acusou a oposição de ter tentado contribuir para a instabilidade das taxas de juro, sempre que pôde, nestes anos em que Passos Coelho está à frente do país: «Tudo isso paga-se muito caro, pelo Estado, primeiro, mas depois por toda a economia, porque as empresas». «E, de repente aquilo que parecia um ritmo sustentável, torna-se um pesadelo». «Serve isto para dizer que se o governo e a maioria tivessem feito a vontade à oposição nestes três anos e meio, tudo aquilo que é apresentado como reporte social do impacto da crise, era uma brincadeira comparado com a realidade do país». Continuou, tentando colar o que o PS defende agora às propostas que terá de apresentar para as eleições:

«Não vivemos nem nas nuvens, nem num mundo ideal. Temos de tomar opções. Ainda bem que é assim. Aqueles que resolvem de forma populista de soluções fáceis, não dizem aos portugueses o que teriam de pagar,  é o caso da PT, das golden shares...». «Seria um embuste». .«Faz sentido fazer agora este balanço, como fará sentido fazer na campanha eleitoral»


Passos recordou a «conversa cordial» que teve com António Costa, ontem mesmo, quinta-feira mas diz que não havendo possibilidade de consenso «estamos a adiar».

«Ficamos a aguardar com muita expectativa o tal programa eleitoral, na certeza de que o que temos para oferecer hoje aos portugueses tem factos muito concretos». Terminou, dizendo que «o socialismo fica na gaveta na altura do governo, mas na oposição é irrelevante. Houve também socialismo no Governo, sabemos infelizmente o preço que pagámos por ele». 


Durante o debate quinzenal, Passos Coelho fez um balanço de 2014, constatando que o país tem agora um «crescimento sustentável», sem o regresso de «velhas políticas».
 
O programa de estágios do Governo foi bastante criticado pela oposição, mas o primeiro-ministro garantiu que 70% destes acabam por traduzir-se em emprego.
 
A privatização da TAP foi outro dos assuntos em destaque, com Passos Coelho a defender que é a única forma de evitar um despedimento coletivo e de garantir viabilidade a longo prazo e a oposição a acusar o Governo de «entregar» um setor estratégico «de mão beijada».
 
O momento mais quente no Parlamento, esta sexta-feira, foi a discussão entre o primeiro-ministro e a porta-voz do Bloco de Esquerda. Catarina Martins acusou o Governo de ter vendido o BPN como um «favor» a capital angolano e de agora não interceder pelos «interesses do país» na garantia de Angola ao BES.