Foi a 1 de abril de 2011, uma semana depois da demissão de José Sócrates, que Pedro Passos Coelho disse o seguinte: "Eu já ouvi o primeiro-ministro dizer, infelizmente, que o PSD quer acabar com muitas coisas e com o 13º mês mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate". 

Vários disparates depois - ou "mitos urbanos", como agora são designados pelo primeiro-ministro -, o último debate quinzenal desta legislatura foi pródigo em recordar as suas declarações do passado, por comparação com o que diz agora.

Sobre os cortes que os portugueses sofreram nos últimos quatro anos, precisamente. E também sobre  a emigração dos jovens ou o aumento do IVA. São estes os três casos que a oposição faz questão de lembrar ao primeiro-ministro e que Passos Coelho diz não existirem, nunca ter dito ou ter sido mal interpretado. 
 

CONVITE AOS JOVENS PARA EMIGRAR


O primeiro-ministro insistiu, no debate, que "não há" frases suas no passado em que tenha dito isso e disse mesmo que é preciso "imaginação" para manter essa ideia.

"Não há", prosseguiu o governante, declarando que o "melhor" que se descobriu até ver foram declarações sobre uma situação específica em torno dos professores, e "é preciso uma grande boa vontade e imaginação para ver nisto um convite ao país para emigrar". São estas as tais afirmações do passado:



Tudo uma questão de boa ou má fé na interpretação, depreendendo pelas palavras de Passos Coelho. Outras declarações que causaram polémicas interpretativas foram, se o leitor bem se lembra, aquelas que se referiam ao desemprego como "uma oportunidade"

 

CORTES   




Passos Coelho garante, hoje, que "não houve pensionistas nem funcionários públicos de mais baixos rendimentos que tivessem sido objeto de qualquer corte de rendimento. Não houve".

Voltando a 1 de abril de 2011, quando disse que era um "disparate" pensar-se que o seu futuro Governo poderia vir a cortar o 13º mês, a verdade é que isso veio a acontecer. Embora, de facto, para salários acima de 485 euros.

O facto é que, com a austeridade aplicada, quer por via do IRS, quer por via de impostos indiretos, todos os contribuintes foram afetados no seu rendimento. 
 
O que diz mais, agora? "Não houve nenhum corte no RSI, nem nenhum corte no subsídio de desemprego, de facto não houve". "As alterações introduzidas visaram apenas garantir que recebiam os apoios aqueles que mais precisavam, não houve nenhuma alteração de condições"

Em 2013, o Governo inscreveu um corte de 6% sobre o subsídio de desemprego que o Governo, bem como a taxa de 5% sobre o subsídio de doença. O Tribunal Constitucional é que veio, depois, chumbar essa medida. E por duas vezes: também o fez em 2014.

 
IVA

 
"Não houve nenhum aumento de taxas do IVA", sustenta agora o primeiro-ministro. "Houve apenas, e isso é conhecido, uma recomposição do cabaz de bens e serviços que estava fixado, de modo a garantir um resultado financeiro que foi quase todo alcançado com a reclassificação da electricidade".

O primeiro-ministro refere-se às taxas em si - de 6% e de 23%,  que realmente já existiam, sendo que o Governo acabou com a intermédia - e assim se mantiveram. A questão é que alguns bens ficaram mesmo mais caros do que antes, como a eletricidade, cujo IVA  passou de 6% para 23%

E o IVA da restauração também aumentou da taxa intermédia para a normal, de 23%. 

A semântica, politicamente, é uma arma muito utilizada para ataque ou defesa entre Governo e oposição. Bem como as interpretações que se fazem dela. Os factos e o que os portugueses sentem na pele ficam retratados neste exercício de memória.