A notícia da detenção de José Sócrates caiu que nem uma bomba no PS. «Dor», «consternação» e «choque» foram algumas das palavras utilizadas. Com António Costa a pedir desde logo aos amigos de Sócrates para separarem os «sentimentos» da «ação política do PS», o discurso foi, no entanto, endurecendo com o decretar da prisão preventiva. Muitos foram os socialistas que exigiram saber mais sobre o processo e Mário Soares fez mesmo renascer a tesa da cabala. O próprio Sócrates pediu ao partido que o deixe a lutar sozinho na Justiça, mas vai ser difícil conter todas as reações num tão curto espaço de tempo.

Antes do caso que envolve o ex-primeiro-ministro, a herança de Sócrates era uma coisa  pacificamente assumida por António Costa. Durante a «luta» contra António José Seguro, muitos foram os «socráticos» que se foram juntando ao autarca de Lisboa. Com a vitória e as consequentes mudanças na bancada parlamentar, até o novo líder dos deputados socialistas, Ferro Rodrigues, fez questão de mencionar e elogiar de imediato a herança de José Sócrates. O partido dava sinais de querer assumir novamente o rumo dos dois últimos governos socialistas, mas a detenção de Sócrates começou a fazer surgir rumores de que as figuras mais importantes destes executivos poderão ser afastadas das listas dos órgãos do PS, que são eleitos este fim de semana, para evitar a colagem num momento delicado.

Ainda António Costa saboreava a vitória sobre Seguro e já Marcelo Rebelo de Sousa avisava Passos Coelho: «Acabou-se a papa doce em termos de líder da oposição». O primeiro-ministro, aliás, não se tem contido nas palavras contra o adversário nas legislativas do próximo ano. Paulo Portas, Pires de Lima, Aguiar Branco e Poiares Maduro também não. No que aos ataques ao secretário-geral do PS diz respeito, o Governo já parece mesmo estar em campanha e a detenção de José Sócrates pode levar o combate para outros ringues (veja-se, por exemplo, a entrevista de Passos na quinta-feira, onde sublinhou a intenção de criminalizar o enriquecimento ilícito). Costa queria eleições antecipadas, mas não conseguiu, e assumiu o desejo de uma maioria absoluta. Neste congresso, e ainda sem saber se concorre contra dois partidos ou uma coligação de direita, espera-se que afine o alvo contra a maioria PSD-CDS. Nas palavras de Jorge Coelho, «a campanha eleitoral começa no domingo».

Para «construir uma alternativa» ao atual Governo, António Costa terá de dizer concretamente aos portugueses ao que vem. O secretário-geral socialista sempre afirmou que, em vez de austeridade, prefere uma aposta no crescimento e emprego, mas teve dificuldade em concretizar propostas e, sobretudo, fazer promessas. Costa quer o salário mínimo nos 522 euros e um programa de reformas a tempo parcial, mas não se compromete com uma descida de impostos se vencer as eleições. Lá vai dizendo que terá «muito prazer» em devolver a sobretaxa de IRS em 2016 e que deseja repor «o máximo possível» dos cortes aos funcionários públicos e pensionistas, mas o programa de governo, já se sabe, fica para mais tarde.

Apenas uma semana depois de vencer as primárias, António Costa ia ao primeiro Congresso do Livre dar esperança aos que acreditam numa união à esquerda. Os sinais de aproximação já vinham da campanha interna e devem continuar neste congresso, uma vez que o partido de Rui Tavares está convidado para assistir à sessão de encerramento. Recorde-se que, entretanto, figuras como Ana Drago e Daniel Oliveira, ex-Bloco de Esquerda, e outros movimentos da esquerda juntaram-se ao Livre para uma candidatura às legislativas. Costa convidou ainda alguns independentes para o congresso, como Sampaio da Nóvoa e Jorge Reis Novais. Coligações pré-eleitorais parecem difíceis, e pouco ou nada se espera de um eventual diálogo com Bloco e PCP, mas a porta para um pequeno entendimento parece estar aberta. Atenção, no entanto, para as recentes declarações de Francisco Assis, que admitiu que o PS pode ter de coligar-se à direita após as eleições.

O debate interno foi duro, mas, com o afastamento voluntário de António José Seguro, as tensões acalmaram. Mesmo estando em discussão e votação uma revisão dos estatutos que tanta celeuma provocou entre os apoiantes de Costa e de Seguro, não são esperados grandes confrontos. Até porque o secretário-geral está a tentar evitar problemas, encarregando Álvaro Beleza de assegurar lugares nos órgãos do partido para alguns «seguristas», mas só as listas finais mostrarão se foi bem sucedido.