No corredor onde do teto pendem os ecrãs indicativos das salas onde decorrem os cinco debates abertos que antecedem o congresso do PS, num luxuoso hotel à beira Tejo, a primeira sala de discussão é mesmo para a “geringonça”. Podemos falar assim, até sem aspas, porque a palavra foi pronunciada abertamente tanto por oradores como pela plateia composta por cerca de 50 militantes, no debate sobre os governos de esquerda.

Tanto André Freire como Tiago Fernandes, ambos investigadores e politólogos, entendem que esta solução política até chegou tarde, comparando com outros países europeus e também porque, olhando para os estudos realizados pelas universidades, os eleitores já há mais do que um par de anos começaram a ver com bons olhos alianças à esquerda, dados os efeitos da austeridade. Entre os deputados, as estatísticas mostram que demoraram mais tempo a equacionar essa soma.

Ambos defendem que há condições para que a solução encontrada por António Costa para governar Portugal pode funcionar. É importante que dure, mas o prazo de vida é relativo em política.

 "Cumprir a legislatura é um fetiche, à direita nunca uma coligação foi até ao fim"

A lembrança foi de André Freire, que espera que esta solução governativa dure e tenha resultados para mostrar, sem que a legislatura seja “um critério”. Mas “é desejável que a geringonça dure”. E também porque os portugueses valorizam a estabilidade.  

Um militante quis fazer um pequeno reparo: "Não é fundamental que a geringonça dure quatro anos, mas não é indiferente que continue a funcionar". É fundamental que esta aliança se mantenha e, sobretudo, que consiga afirmar a diferença que os eleitores querem ver na aplicação da política social-democrata. (...) Se correr mal, vai mergulhar-nos num pântano, não sabemos como vamos sair, nem a Europa", acrescentou.

BE e PCP: um bom começo na geringonça

André Freira vê “pragmatismo” de BE e PCP, por exemplo na questão das 35 horas, o que é um bom ponto de partida para o que aí vem. O investigador Tiago Fernandes, assumidamente apoiante da geringonça, antecipou que "este Governo pode ser o início de uma coligação progressista".  Em que medida? "Não basta uma solução político-partidária", mas também “uma relação forte com a sociedade civil e com os movimentos sociais", defendeu, recordando os movimentos recentes na era da troika, em que a sociedade civil se expressou massivamente nas ruas.

Foi mais o Bloco de Esquerda que ganhou politicamente com isso, segundo a deputada socialista Isabel Moreira. Discordou "em absoluto" com Tiago Fernandes quando disse que o PS devia, como a direita, de fazer apelo aos valores da família “e não se aventurar a estilos de vida".

"O que faltava e levou fortemente ao crescimento do BE era coragem para ter crescimento nestas matérias: a sociedade de hoje, crescentemente, já não tolera que duas pessoas não possam ser felizes porque são do mesmo sexo ou não possam ter filhos"

Faltava isso ao PS e a deputada congratula-se por ver uma mudança no partido.

O que falta ao PS

Tiago Fernandes também tinha enfatizado a importância da aliança social, com os problemas concretos das pessoas e a partir delas.

"Uma aliança progressista duradoura é uma aliança social, entre grupos e classes sociais diversos. Não é apenas uma coligação de governo. Implica, por isso, enraizamento social e mobilização organizacional"

Mas é precisamente isso que, concluiu-se neste debate, falta ao PS. Criar raiz na sociedade. Daí aquele investigador defender um modelo federativo, "mais fluido, que chegue às pessoas, faça recrutamento de líderes locais e mobilização de redes locais, como escolas, autarquias, igrejas e associações”.Dois militantes fizeram-se ouvir em bom português:

"Não basta ir beber uma bica à secção para contribuir para o enraizamento do PS"

 

“Há mais exclusão do que inclusão”, atirou outro.

Queria saber qual a estratégia para as autárquicas. São só em 2017, mas muitos militantes esperam que o congresso comece a delinear um plano. Um congresso onde tomará a palavra Francisco Assis, o maior opositor publicamente assumido da solução governativa encetada por António Costa com os partidos da esquerda. Não marcou presença neste debate, mas foi citado por André Freire, que lhe lançou críticas: "Francisco Assis tem um trauma, está parado, é uma coisa patológica". Haverá certamente oportunidade para responder durante este fim-de-semana.