O líder do CDS-PP apelou este sábado aos eleitores que preferem o CDS, mas que costumam votar útil no PSD, que deixem de ter medo de votar “na sua primeira escolha” porque o sistema partidário mudou desde as últimas legislativas.

Depois de ter deixado um agradecimento ao líder do PSD, Pedro Passos Coelho, e ex-parceiro da coligação, Paulo Portas não hesitou no seu discurso perante o 26.º Congresso do CDS-PP que decorre em Gondomar, e que marcará a sua saída do partido, em apelar ao voto dos que tradicionalmente escolhem o PSD nas urnas.

“Aos eleitores de centro-direita (…) que se reconhecem mais nas ideias do CDS, mas nos últimos dias [antes das eleições] deixam a sua primeira escolha e migram para a segunda escolha, com medo, digamos francamente, que o PS ganhe ao PSD, esse medo deixou de ter razão de ser”, afirmou.

Paulo Portas recordou que o atual primeiro-ministro, o socialista António Costa, não venceu as eleições legislativas de 04 de outubro.

“O que conta não é o partido que fica em primeiro lugar o que conta a partir de agora é quantos deputados somam os partidos que podem formar maioria, ou seja, os deputados que o CDS conseguir eleger são absolutamente determinantes, escolham à vontade a vossa primeira opção”, apelou.

Para Paulo Portas, “não é de excluir que a ‘geringonça’ venha a ser vítima da sua própria medicina”.

“É a vida, o sistema partidário mudou para sempre com esta inédita experiência, da era do voto útil no PSD, à era do CDS como o partido cujo voto conta e muito, eis uma grande e assinalável diferença”, defendeu.

"Esquerda dá, coligação tira. Chega desta caricatura"

Ao recordar o período de governação conjunta com o PSD, Paulo Portas pediu – e obteve – uma ovação de pé do Congresso para o “’team’ económico” do CDS, no qual incluiu os ex-ministros da Economia, Segurança Social e Agricultura – Pires de Lima, Mota Soares e Assunção Cristas, respetivamente.

O líder do CDS lamentou, contudo, que o partido só tenha assumido funções de governação com Portugal “em aflição financeira ou sob ameaça externa” e que os jovens portugueses com menos de 35 anos não tenham “sequer memória” do centro-direita a governar em normalidade.

“Peço ao CDS renovado que evite esta armadilha letal que leva à infantilização do debate político: como se Portugal estivesse condenado a oscilar entre a esquerda que compra simpatias, distribui facilidades, tudo dando a todos no mesmo instante e sem nenhumas contas fazer, para depois mais tarde chegar a fatura e entrarmos como país nos cuidados intensivos”, disse.

“E então lá chamam pelo PSD e CDS em SOS e aí a coligação é que corta, a coligação é que tira”, acrescentou, dizendo que “já chega desta caricatura”.

“Está para chegar um primeiro-ministro socialista com calibre para reduzir um défice de 11% para 03 % mais décima curiosa menos décima milagrosa”, afirmou, com os congressistas a aplaudirem esta referência a Pedro Passos Coelho.

 

O ainda líder do CDS-PP usou o discurso para deixar críticas ao BE, que chamou de "syrizinhas de cá", de falharem o apoio à Grécia, perante a possibilidade de o parlamento português não conseguir aprovar os compromissos internacionais inscritos no Orçamento.

De acordo com a manchete de hoje do jornal Público, o parlamento português está em risco de chumbar as ajudas à Grécia e à Turquia, inscritas no Orçamento, e noticia que o PSD já anunciou que vota contra.

"Mas então nós perguntamos, não nos andaram a azucrinar com o lindo que era o Syriza, não andaram a intrujar o povo com a ideia de que o Syriza era o fim da longa noite da austeridade da Europa?", questionou.

O líder do CDS-PP sublinhou que foi o Syriza, partido pelo qual o BE fez campanha, "que pediu o terceiro resgate" e é "a Grécia do Syriza que precisa de dinheiro para sobreviver".

"E agora os 'syrizinhas' de cá têm vergonha do Syriza de lá e na hora de se chegarem à frente falham, bazam, desertam?", indignou-se.

"Na hora de acudir ao amigo Tsipras [líder do Syriza] deles, não respondem à chamada. Deixem de ser licenciados em falsa virtude e assumam as vossas responsabilidades", apelou.

Durante a sua intervenção, o líder cessante do CDS-PP, Paulo Portas, referiu-se, também à "transição ordenada" para Assunção Cristas e defendeu que existe uma "pax centrista que é invejável", recomendando que não percam demasiado tempo a discutir lugares.

"Foi uma agradável surpresa: uma transição ordenada, sim, mas sem quebra de espontaneidade. Uma sucessão natural, sim, mas com exemplos magníficos de renúncia em nome do todo e de sentido de equipa pelo bem comum", afirmou Paulo Portas, numa referência a Nuno Melo, que não se candidatou à liderança, à qual Assunção Cristas se apresenta como única candidata.

Na sua despedida da liderança, perante o 26.º Congresso, Paulo Portas, 53 anos, afirmou: "Respira-se uma espécie de ‘pax' centrista, que é invejável, garanto-vos".

"Aqui chegados, devemos discutir o que um CDS renovado pode fazer por Portugal. Não percam, por isso, demasiado tempo a discutir qual é o lugar de cada um no CDS renovado, é importante mas não é o mais importante", recomendou.

Num clima de "unidade sem unicidade", afirmou, usando as palavras de Adelino Amaro da Costa, Paulo Portas assegurou que abandona a liderança para ser um militante de base.

"A partir de amanhã eu serei apenas um de vós e esse sentido de pertença é uma grande honra", declarou logo no início da sua intervenção perante o Congresso, reunido no Pavilhão Multiusos de Gondomar.

A intervenção de Portas foi antecedida por um filme de agradecimento, com imagens de momentos significativos do percurso de Portas desde que foi eleito presidente dos centristas no Congresso de Braga, em 1998.

O presidente cessante foi aplaudido de pé pelo Congresso do partido, despedindo-se em lágrimas da liderança, e afirmando que especulações sobre o seu futuro a seis meses ou dez anos são "atrevimento".

"Não se preocupem com a pergunta ‘o que é que ele vai fazer daqui a dez anos'. No mundo em que nós vivemos qualquer especulação superior a seis meses é no mínimo atrevimento", afirmou Paulo Portas, numa referência ao calendário eleitoral para a Presidência da República.

Emocionado, com o Congresso de pé, Paulo Portas terminou a sua intervenção dirigindo-se à candidata à liderança Assunção Cristas, afirmando que muitos portugueses esperam da ex-ministra da Agricultura que seja "um par de mãos seguras para tratar bem de Portugal".

O presidente do CDS-PP, Paulo Portas, de 53 anos, despede-se da liderança do partido perante o 26.º Congresso, o qual deverá escolher Assunção Cristas como sua sucessora.

Paulo Portas tornou-se líder do CDS-PP em 1998, tendo estado afastado da direção centrista apenas dois anos, entre 2005 e 2007, durante a liderança de José Ribeiro e Castro.

Assunção Cristas, de 42 anos, deputada deverá tornar-se a primeira mulher a liderar o CDS-PP.