O presidente da Comissão Europeia disse, este sábado, esperar que as autoridades portuguesas «utilizem bem» os apoios europeus na luta contra a pobreza, sublinhando que é possível combinar o acento tónico no crescimento com medidas para os que mais necessitam.

Numa intervenção na cerimónia de entrega do donativo do prémio europeu Carlos V à CAIS e à Escola Secundária de Camões, em Lisboa, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, focou de forma particular o problema do aumento da pobreza, referindo-se especificamente aos apoios europeus que Portugal irá receber entre 2014 e 2020 através do Fundo Social Europeu consagrados ao «investimento no capital humano, emprego e inclusão», num total de 7,7 mil milhões de euros.

«É bastante dinheiro se for bem executado», sublinhou, recordando que existe a obrigatoriedade de todos os Estados aplicarem pelo menos 20 por cento do Fundo Social Europeu na luta contra a exclusão social e a pobreza.

«Em Portugal isto vai traduzir-se em 1,6 mil milhões de euros de apoio diretos às pessoas mais vulneráveis. Espero que as autoridades portugueses utilizem bem estes fundos para ações especialmente vocacionadas na luta contra a pobreza», disse Durão Barroso.

Antes, o presidente da Comissão Europeia já tinha admitido a existência de situações de «emergência social» em Portugal, depois de um «ajustamento muito difícil», que levou em alguns casos ao agravamento das condições sociais.

Defendendo que «com boas políticas públicas é possível combinar o acento tónico posto no crescimento com medidas especialmente dirigidas para aqueles que mais necessitam», Durão Barroso fez alusão às responsabilidades do Estado no apoio aos mais cadenciados, mas também ao contributo que a sociedade pode dar.

«Acho essencial que hoje, na procura do relançamento da economia, se consiga, ao mesmo tempo que se investe nos fatores de futuro, que podem trazer maior crescimento, que se tenham políticas especiais para aqueles que são os mais carenciados. É possível, através de políticas públicas combinadas com iniciativas da sociedade civil, minorar muito os efeitos da crise económica», preconizou.

«No Portugal não democrático havia ensino de excelência apesar do regime político

O presidente da Comissão Europeia, ainda, contrapôs a «cultura de excelência» promovida nas escolas antes do 25 de Abril com a situação atual.

«No Portugal não democrático, no Portugal pré-União Europeia e pré-Comunidade Europeia havia ensino de excelência apesar do regime político em que se vivia e isso era possível porque numa escola era desejável reforçar a própria cultura de excelência da escola. Não estou seguro que aconteça hoje o mesmo em muitas escolas portuguesas e europeias», afirmou o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

Durão Barroso recuou ao tempo em que ele próprio estudava no então chamado «Liceu Camões», onde beneficiou de «uma educação de exigência» numa «boa escola».

«Estamos a falar de antes do 25 de Abril, de uma sociedade portuguesa que não conhecia ainda a liberdade, estamos a falar de uma escola pública (¿) num período em que ainda não havia democracia e, no entanto, estou a dizer que foi uma boa escola», frisou.

Pois, continuou, embora algumas liberdades estivessem «cortadas» e se vivesse num regime ditatorial, «havia na escola uma cultura de mérito, de dedicação, de trabalho».

«Penso que foi uma pena na evolução posterior não ter sido sempre possível conciliar a indispensável democratização do ensino com o mesmo nível de exigência», acrescentou, considerando que apesar do nível de educação mais elevado que existe hoje em dia e das «possibilidades imensas» que são oferecidas aos jovens perdeu-se alguma coisa em termos de «exigência, do rigor, da disciplina, do trabalho».