O presidente da Câmara do Porto anunciou, esta sexta-feira, que a coleção de obras de Joan Miró provenientes do antigo Banco Português de Negócios (BPN) vai permanecer na Casa de Serralves, sendo o modelo institucional anunciado "dentro de dias".

“Depois de uma prudente ponderação, entendi que esta coleção notável, coerente e indissolúvel, agora sob a tutela da Câmara Municipal do Porto, não poderia, de momento, ficar em melhor lugar do que aqui na Casa de Serralves. Com a pronta concordância da Fundação, posso agora revelar que este novo polo cultural do município ficará instalado nesta casa maravilhosa e queria também dizer que o senhor arquiteto Siza Vieira já aceitou o encargo de transformar esta casa de tal forma a que a coleção possa ficar aqui de forma permanente”, declarou o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, depois da inauguração da exposição “Joan Miró: Materialidade e Metamorfose”.

Por seu lado, a presidente da Fundação de Serralves, Ana Pinho, declarou que a decisão não foi tomada “antes de o assunto ser abordado e também recolher a opinião da diretora do museu de Serralves”, pelo que “a todos pareceu que era uma boa decisão”.

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A inauguração da exposição dos quadros de Joan Miró contou com a presença do Presidente da República, do Primeiro-Ministro português e do homólogo espanhol. 

Aproveitando a presença de Mariano Rajoy, o Presidente da República anunciou a visita do rei Filipe VI de Espanha à cidade do Porto no próximo mês de novembro, considerando esta uma forma de prolongar a amizade fraterna que existe entre os dois países.

“O Presidente da República de Portugal quer reiterar essa visão de amizade fraterna que espera poder prolongar de forma efusiva na receção a sua majestade o rei Filipe VI aqui mesmo em novembro, na mui nobre e leal cidade do Porto”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa durante a cerimónia.

Numa palavra dirigida a Mariano Rajoy, Marcelo considerou a presença no evento do presidente do Governo espanhol como mostra “simbólica da amizade fraterna entre os dois povos”.

“A amizade entre Estados e povos vizinhos é feita de uma inextricável rede de ligações explícitas e implícitas, visíveis e invisíveis, que é chamada a enfrentar desafios quotidianos que testam essa amizade, as suas expectativas e os seus instantes mais preocupantes”, assinalou.

E acrescentou: “Não há amizades, verdadeiras amizades simples. Todas são exigentes, porque desafiadoras. E quanto mais antigas, mais experimentadas, mas exigentes são”.

“Eis como Miró proporcionou um encontro como o de hoje, sortilégio do génio dos grandes criadores culturais. Abrem caminho em encontros que vão ainda mais longe que as suas imaginações prodigiosas”, declarou.

O Presidente da República afirmou ainda que a Casa de Serralves no Porto é o melhor espaço para acolher a coleção de obras de Joan Miró e saudou o Governo por tomar a melhor decisão para o interesse nacional.

“Onde melhor deveria ser patenteada esta exposição, testemunho de criatividade e comunismo, tão definidores desse sonho sempre renovado que é Serralves?”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

O chefe de Estado defendeu ainda que a cidade do Porto – “capital da liberdade e criatividade cultural” – é a melhor para acolher “uma coleção de Joan Miró, ele próprio exemplo de cultura e liberdade”.

O Presidente da República saudou ainda a “decisão do Governo, que soube compreender a situação existente e acolher o que melhor se ajustava ao interesse nacional”

Comissariada por Robert Lubar Messeri, com projeto de Álvaro Siza Vieira, a exposição reúne a quase totalidade das obras da coleção de Miró na posse do Estado provenientes do BPN e percorre o rés-do-chão e o primeiro andar da Casa de Serralves.

A coleção em causa, proveniente do antigo Banco Português de Negócios (BPN), “inclui um total de 85 obras de Miró, do ano de 1924 até 1981”, nas quais se encontram “desenhos e outras obras sobre papel, pinturas (com suportes distintos)”, além de seis tapeçarias de 1973, uma escultura, colagens, uma obra da série “Telas queimadas” e várias pinturas murais.

Os bancos podem desaparecer, mas que a criação cultural fica

O primeiro-ministro declarou hoje que a coleção do pintor Joan Miró proveniente do ex-BPN, cuja maioria compõe a exposição inaugurada em Serralves, mostra que os bancos podem desaparecer, mas que a criação cultural fica.

“Nesta época, onde tantas vezes temos dúvidas sobre a hierarquia dos valores, a história recente desta coleção ajuda-nos a pôr os valores na sua devida hierarquia. Com esta coleção ficámos a saber que os bancos, por muito valiosos que sejam, podem-se ir, mas há algo que fica e que é permanente e de um valor intangível, que é o valor da criação cultural da obra dos 80 quadros que Joan Miró pintou e que nos legou para a nossa fruição”, afirmou o primeiro-ministro.

“Decidimos que estas obras ficarão na cidade do Porto e ficarão na cidade do Porto porque o Porto é uma marca mundial, uma marca mundial pelo vinho a que deu nome, mas é uma marca mundial pela excelência da sua criação artística ao longo dos séculos, pela excelência da criação artística contemporânea”, disse António Costa, recebendo um aplauso dos presentes.

Assim sendo, Costa dirigiu-se ao autarca Rui Moreira para dizer que é com “um enorme prazer que o Estado confia à Câmara Municipal do Porto a coleção de que é proprietário, estando certo de que nas suas mãos esta coleção estará (…) sobretudo aberta aos olhos de todos aqueles que queiram visitar [Portugal] e conhecer melhor Joan Miró”.

Dirigindo-se, depois, ao presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, António Costa declarou que Portugal e Espanha ficam agora “mais próximos”.

“A partir de hoje, o Porto não partilha com Espanha só as águas do Douro, passa também a partilhar com Espanha a presença, a oportunidade de conhecer e a oportunidade de divulgar para todo o mundo a obra de um grande espanhol que produziu uma obra que é hoje património comum de toda a humanidade”, declarou.

"Dos maiores acontecimentos culturais" na Europa

Logo depois foi a vez do presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, afirmar que a exposiçãona Casa de Serralves representa “um dos maiores acontecimentos culturais deste ano na Europa”.

“Com a garantia do comissariado de um especialista tão reconhecido Robert Lubar, [a exposição] ‘Joan Miró: Materialidade e metamorfose’ representa, em sim mesmo, um dos maiores acontecimentos culturais deste ano na Europa”, afirmou Rajoy.

O presidente do Governo espanhol disse ainda que a sua “satisfação é ainda maior” depois de “saber que esta coleção vai permanecer de forma definitiva no Porto".

"Como espanhol, estou reconhecido. A obra de Miró não poderia estar em melhor lugar e em melhores mãos”, destacou o governante, que disse não ter “nenhuma dúvida de que esta exposição vai ser um grande êxito"

Rajoy assinalou ainda que “são milhões os estrangeiros que cada ano vêm a Portugal” e que, “de entre todos os turistas” que visitam o país, “para os espanhóis o sentimento é especial”.

“Quando chegamos a Portugal, temos a consciência e o prazer de chegar a um país irmão”, realçou.

Mariano Rajoy referiu ainda que “Espanha não se pode entender a si própria sem a sua relação com Portugal” e vice-versa e que “no mundo há muito poucos casos de numa vizinhança tão rica como a partilhada entre Portugal e Espanha”.

“A nossa convivência ibérica é um exemplo poderoso e uma mensagem que mandamos às restantes nações”, sublinhou.

Já o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, classificou hoje como um “casamento feliz” a decisão da Câmara Municipal do Porto de manter em Serralves a coleção de obras de Miró.