Pedro Passos Coelho lançou o desafio. Disse estar disponível para estabelecer compromissos entre os todos os partidos que elegerem deputados depois das eleições. Mas Jerónimo de Sousa recusou esta quinta-feira à noite, de forma taxativa, qualquer união com a direita. 

“Passos coelho disse hoje uma coisa que nem ele acredita, que é preciso a união de todos os partidos”, começou por dizer o líder comunista na intervenção que fez no jantar-comício realizado em Serpa, deixando escapar: “União é uma palavra que nos provoca urticária.”


Depois questionou esta iniciativa de Passos Coelho, salientando que o líder do PSD "sistematicamente vinha fazendo um apelo ao PS, ao CDS, para formar o arco governativo, o arco da velha política de direita".

"Nem pensem que vamos servir de sustentação a essa política de direita integrando o caldeirão de políticas requentadas", reforçou Jerónimo de Sousa, recorrendo a uma imagem da sabedoria popular para rematar a argumentação: "Uma figueira brava, mesmo enxertada de macieira, nunca dará maçãs". O mesmo, disse, se aplica a políticas de direita, mesmo que enxertadas.


"No tempo da escravatura trabalho nunca faltava"

Jerónimo de Sousa fez também um duro ataque à campanha da coligação de direita. “Enquanto são cúmplices ativos na liquidação da produção leiteira nacional, Passos e Portas dedicam-se na campanha eleitoral à colheita de framboesas”, começou por ironizar.

Depois falou sobre a visita dos líderes da coligação a uma exploração de Tavira. “Confrontaram-se com trabalhadores do Paquistão, do Nepal, do Bangladesh, da Índia, que, numa ocupação sazona de seis meses, ganham 2,27 por hora”. 

“E logo luzia na cabeça do primeiro-ministro a mais brilhante ideia para ajudar à propaganda mentirosa sobre o emprego: por que não utilizar desempregados nacionais?”, continuou.


Jerónimo de Sousa sublinhou, contudo, que nem Pedro Passos Coelho nem Paulo Portas “se deram ao trabalho de questionar o salário desses trabalhadores”. Depois, o líder comunista fez as contas que, disse, Passos e Portas “não fizeram”. 

“Se fizessem concluiriam que esses trabalhadores, num trabalho sazonal, trabalhando oito horas por dia, seis dias por semana, num mês ganhavam 470 euros. Menos que o salário mínimo nacional, 505 euros. Não quiseram assumir a ilegalidade da situação.”


Chamando “farsantes” aos líderes dos partidos no poder, Jerónimo de Sousa acusou-os de terem feito  de conta “que não percebiam as verdadeiras razões por que não há trabalhadores portugueses” nesta área, para depois defender que este é o “modelo laboral” que PSD e CDS “têm vindo a concretizar”. 

“Mão de obra barata, precária e desqualificada. É essa a dignidade que Passos e Portas julgam que o trabalho e os trabalhadores merecem”, afirmou, concluindo: “No tempo da escravatura, o trabalho nunca faltava. Faltava era salários, faltava era direitos”.

O desafio de Heloísa Apolónia

A líder do PEV esteve ao lado de Jerónimo de Sousa durante o jantar e foi uma das oradores da noite. Num discurso em parte dedicado "aos partidos da troika", a ecologista fez um desafio às maiores formações políticas. 

"Impõe-se, portanto, agora questionar diretamente os partidos da troika, PS, PSD e CDS (...), para que digam claramente: se o nível do défice não for atingido, que medidas adicionais querem mais impor para sacrificar os portugueses?". 


Heloísa Apolónia defendeu que não é possível passar mais "cheques em branco a forças políticas que, em qualquer oportunidade, aquilo que fazem, sem qualquer pudor, é trair os portugueses". 

E avançou depois com uma explicação para os silêncios dos maiores partidos sobre este tema.
 
"Se eles falarem verdade, eles sabem que perdem votos, por isso não falam, por isso nós temos de os obrigar a falar, questionando-os", disse.