Um dia de marcha no Porto. Uma noite de comício em Famalicão. Jerónimo de Sousa terminou a última jornada de pré-campanha com um discurso contra a “mentira” de que a 4 de outubro se irá eleger um primeiro-ministro, contra a “bipolarização” da campanha e contra o discurso necessidade de uma maioria estável. O líder comunista não poupou Cavaco Silva, voltou a marcar distâncias em relação ao PS e acusou os partidos da coligação PAF de se querem apresentar “lavadinhos, por cima e por baixo”.

Numa sala cheia e animada previamente pela voz e guitarra do músico Jorge Lomba, com acordes e letras e intervenção, Jerónimo de Sousa aplicou-se a tentar desmontar o discurso dos maiores partidos. 

Um dos alvos foi o cenário de recuperação apresentado por PSD e CDS, o discurso do “isto está no bom caminho”, que segundo Jerónimo de Sousa dá legitimidade aos portugueses para perguntarem:

“Se isto está no bom caminho, deem para cá o que me roubaram no salário, o que me roubaram na pensão”.


A assistência aplaudiu e o líder comunista continuou. Primeiro sublinhando a dissonância entre o discurso de que “não há dinheiro” para inverter cortes e os “20 mil milhões de euros a fundo perdido” que “a banca sugou”. Depois, reiterando o desafio: “Se está tudo bem, devolvam-nos o que nos tiraram”. 

“Se não trouxermos à memória dos portugueses aquilo que eles fizeram é vê-los a tentar limpar a folha, a apresentarem-se lavadinhos, por cima e por baixo, como se não tivessem nada a ver com aquilo que está a acontecer no nosso país”, anotou, sublinhando que os partidos do atual governo “agravaram” em vez de resolverem os problemas que se propunham solucionar, como a dívida.


Jerónimo de Sousa insurgiu-se também contra a “mistificação” de que estas eleições são para eleger um primeiro ministro e não 230 deputados. E também se indignou com a bipolarização entre os maiores partidos, “com se o resto não contasse”. 

“Essa bipolarização, que envolve o próprio Presidente da República, parte do pressuposto que é preciso uma maioria absoluta”, disse Jerónimo de Sousa, para depois recordar que Cavaco Silva também já governou com uma. 

“Essa maioria absoluta, essa estabilidade governativa que então se verificou, foi a desestabilização da vida dos portugueses e, por isso, foi-se embora derrotado”, disse.


O PS também esteve na linha de fogo, mais uma vez. Jerónimo de Sousa disse compreender quem o questiona sobre a possibilidade de um entendimento com os socialistas. Mas pediu também para ser compreendido quando recusa aceitar políticas de direita. 

“Digam-me lá, estão de acordo que assinemos um acordo com o PS para tramar reformados, trabalhadores e pensionistas?”. A pergunta recebeu um sonoro “não” de quem o ouvia.

“O PS andou a hibernar durante quatro anos”, disse. “Desapareceu de combate, enquanto nós fazíamos o combate à direita.”


A noite não terminou sem Jerónimo de Sousa ir ao programa da CDU, para apresentar uma das propostas da coligação para a Segurança Social: criar uma taxa para empresas com elevado Valor Acrescentado Liquido por trabalhador.