O auditório da biblioteca de Santa Maria da Feira encheu para ouvir Jerónimo de Sousa acusar os maiores partidos de terem esvaziado o poder político em relação aos poder económico, permitindo a “promiscuidade” entre os dois. O líder comunista não resistiu, uma vez mais, às críticas ao PS. Desta vez, disse que os socialistas não têm qualquer autoridade “moral” para apelar ao voto por terem “desertado da luta”. 

A chegada ao distrito de Aveiro aconteceu depois de uma passagem pelo Porto, mais intelectual, e de outra pelas ruas de Gondomar, de pulsação mais acelerada, mais cardíaca. Até porque foi com o coração ainda a ritmo de arruada e com a “campanha eleitoral de proximidade” na boca que Jerónimo de Sousa chegou à Feira. 

O líder comunista anotou, no início do comício, que esse contacto de proximidade é “uma coisa que nem todos podem fazer” e que outros não querem, por terem de “lidar com a populaça”, com “o povo”.

O povo riu e Jerónimo de Sousa foi no balanço, para o fazer rir novamente, quando decidiu entrar no tema da “maternidade” e da “paternidade” da troika, para lhe juntar um apadrinhamento.

“Usava-se antigamente uma expressão, felizmente banida, que era filho de pai incógnito. Pois, esse pacto de agressão, não tinha pai, não tinha mãe, nem tinha padrinho. A gente tem que arranjar aqui um espaço para o CDS também, pronto, pode ser padrinho”.


Mas a tirada, que fez rir a plateia, serviu de ponte para o “balanço trágico” dos anos de intervenção externa. E para colar, logo a seguir, o ataque aos “argumentos” que, segundo o líder comunista, têm servido para de pretexto para impor austeridade. Desde “o país está de tanga”, de Durão Barroso, ao PS de Sócrates quando chegou ao poder.

“E veio este Governo, então, outra vez, com esse discurso da  pesada herança”, sublinhou Jerónimo de Sousa, lamentando que este seja “sempre o mesmo filme a ser rebobinado”, porque vê os maiores partidos “juntos naquilo que foram as principais malfeitorias que se abateram sobre os portugueses”.


E as referências cinematográficas não se ficaram por aqui, porque, pouco depois, Jerónimo de Sousa lembraria “outro filme”: o dos debates pré-eleitorais entre Pedro Passos Coelho e António Costa, ”em que pareciam aqueles tipos dos filmes de cowboys, do duelo ao amanhecer, do duelo ao entardecer”, mas que no final, “espremidinho, espremidinho, se concluía que as semelhantes eram muito maiores do que as diferenças.”
 
E cada vez menos diferenças é também o que Jerónimo de Sousa vê entre o poder político e o poder económico. “Na política, creio que é fácil fazer isso, ficar do lado dos que mais têm”, atirou, defendendo que os últimos anos renderam “milhares de milhões de euros” ao grande capital. E depois fez uma denúncia: 

“A opção PS, PSD e CDS foi sempre encostarem-se a esse poder económico, permitindo até a promiscuidade entre a política a os negócios. Levando até à descaracterização de um princípio fundamental, que a nossa Constituição da República aponta, que é  que o poder político deve sobrepor-se ao poder económico”. 


Segundo Jerónimo de Sousa, quem passou a mandar em Portugal foi o “capital financeiro” e os “grandes grupos económicos”.

“E, por isso, estes casos e mais casos de corrupção”, defendeu, considerando que eles não acontecerem “porque uns chicos espertos começaram resolver a amanhar-se com dinheiros públicos”. “Não, camaradas, isto é resultante do próprio sistema. É resultado do poder económico determinar o poder político, naturalmente pagando a quem o serve”, concluiu. 


Um peru em vésperas de Natal

Depois do capital, foi a vez de se lançar sobre o PS, que disse estar a tentar “capitalizar” o descontentamento dos portugueses  com a atual situação. 

“Pode o PS capitalizar, mas não tem moral nenhuma, por aquilo que fez e não fez, de estar a apelar e a pedir o voto aos portugueses”, disse Jerónimo de Sousa, que gracejou quando se referiu às queixas que tem recebido por atacar os socialistas: “Bom, então, não chamem a isto ataque. [Chamem] pedidos de esclarecimento”. Ele ironizou, apoiantes riram novamente.


Jerónimo de Sousa jsutificou que a falta de “moral” que atribuiu ao PS se deve à “deserção” do “combate” após as últimas eleições.

“Andava ali, nos primeiros tempos, parecia quase um peru em vésperas de Natal, com tristeza, a sujeitar-se àquelas… como é que era?! Ah, abstenções violentas, porque perante uma moção de censura do PCP, lá estava a abstenção violenta”, recordou, numa referência aos tempos de António José Seguro. “Desapareceram do combate, na altura em que as populações sofriam ofensivas tremendas”.


O PS mereceu ainda críticas por causa da posição em relação às privatizações: “Lembram-se da Cimpor, a privatização foi só a 17 por cento numa primeira fase, para, em seguida, ser tudo privatizado”. Mas também relativamente às propostas para a segurança social e principalmente sobre as políticas laborais: “No plano dos direitos dos trabalhadores, quase que poderíamos dizer que a proposta do PS é pior do que a da direita”.