Chegaram antes deles e ficaram depois deles terem partido. No Couço, as mulheres são um pilar do Partido Comunista. Puseram a mesa, cozinharam, serviram, levantaram os pratos, recolheram sobras e vão distribuí-las. 

Lavam a louça no momento em que esta crónica se escreve, ao som do tilintar de talheres e de conversas animadas. Toucas brancas no cabelo, aventais brancos também. Coração vermelho, garantem todas. Garante-o Jerónimo de Sousa, numa terra onde a CDU teve 51,7 por cento dos votos nas últimas eleições.

“Nós não estamos a jogar em casa, nós estamos em casa”, disse o líder comunista, com o cozido a descansar no prato dos comensais, para ouvir o homem forte da CDU. E as primeiras palavras foram para dizer que, “nesta terra da liberdade, nesta terra de antifascistas” destacam-se “particularmente as mulheres”. 


Lá ao fundo, na cozinha improvisada na Casa do Povo, para onde Jerónimo apontava, elas haveriam de receber com um sorriso as solicitações dos jornalistas, as perguntas e até um pedido para uma fotografia de grupo para a reportagem que agora lê.



“Agora é muito fácil ser comunista no Couço, é muito simples”, conta Lucinda Cochico, de 67 anos, a cozinheira chefe do grupo. Simples, diz, porque já não tem de ler “O Avante” às escondidas, nem fugir à PIDE. Nem enfrentar a clandestinidade. Recorda os “levantamentos de rancho”, as “greves”. “Comecei logo de muito cedo a participar nessas lutas todas”, frisa. 

Entre duas panelas avantajadas, Lucinda recorda que deixou a escola aos 11 anos para começar a trabalhar. Conta também o que enfrentou quando partiu da terra. “Quando saí do Couço para ir lavar material de guerra para Beirolas, não podíamos dizer que éramos do Couço. O Partico Comunista era um rótulo que tínhamos lá. Dizia que era de Coruche."  Puxa da memória ainda o primeiro Primeiro  de Maio em que começou a trabalhar.

“A polícia cercou a aldeia toda, porque fizemos um piquenique, havia umas azinheiras e fizemos aí um comício, muito encapotado, mas eles, assim que deram por isso, cercaram a aldeia”, conta. “Infelizmente prenderam algumas pessoas”.


Ao lado, Maria de Lurdes Carvalho sorri e vai assentindo com a cabeça a histórias de Lucinda. Tem 72 anos e também muitas histórias para contar. Mas o sorriso esmorece. Diz que levou uma vida em que “ninguém acredita”. Os olhos humedecem-se para lamentar a infância que lhe fugiu antes sequer de agarrar. 

“Tive uma madrasta, fui obrigada a juntar-me com um homem que tinha mais 22 anos do que eu”, recorda.


O resto das palavras são mudas. Presas num aceno dorido da cabeça e entre os lábios cerrados, para não se descompor. Depois, quebra o silêncio. 

“Fui trabalhar, não levava comida, chegava ao almoço e eu só levava o cesto, não tinha que comer, escondia-me. À tarde, quando chegava, ia pedir com um saquinho pelos pobres, ia pedir por mim e pelos meus irmãos”, recorda. 


Diz que é comunista porque não podia deixar de o ser. “Lembro-me do sofrimento que passei”, sublinha. “Se eu fosse rica toda a gente era rica.”

Depois, lá do fundo, já com o salão do almoço vazio, devolve o elogio que Jerónimo de Sousa fizera às mulheres do Couço com ele cheio, lá à frente. “É ele o mais verdadeiro que aí há. Os outros dizem uma coisa e fazem outra. Nunca falam verdade.”

Num panelão vai largando os restos do almoço que servira para “mais de 250 pessoas”. “Grão, batata, hortaliça, feijão verde, cenoura, couve cabreira, massa, sopa de pão e hortelã, além da carne”. Um cozido com tudo, à moda do Couço. “Dá para todos e ainda sobra”.