Jerónimo de Sousa deixou há muito a fábrica. Mas a fábrica nunca deixou Jerónimo de Sousa. O líder comunista continua operário na voz. E isso foi evidente esta terça-feira à noite, numa sala cheia, na Voz do Operário, em Lisboa. A seis centenas de apoiantes da CDU, o secretário-geral do PCP apontou onde está o dinheiro que falta para sustentar os serviços públicos e voltou à carga contra o PS.

Enquanto se iam distribuindo sopas e frango com arroz pelas mesas, Jerónimo de Sousa lançava do palco ideias “alternativas” às da política das “inevitabilidades”. Receitas para sustentar os serviços públicos, que “os partidos da troika nacional” dizem ser insustentáveis.   

“Vem sempre aquela pergunta insidiosa: mas como é que vocês querem encontrar o dinheiro para isso tudo? Nós respondemos: acabe-se com essa marmelada de estar sempre a encher os bolsos aos grandes grupos económicos e financeiros”, soltou Jerónimo de Sousa, entre gargalhadas, palmas e manifestações de apoio do salão. 


Depois, continuou, apertando feridas ainda abertas e a respirar na sociedade portuguesa, para sustentar a argumentação de que o dinheiro, que os partidos no poder dizem que falta para serviços, chega sempre para salvar bancos.
 

“Pensassem nisso quando enterraram mais de cinco mil milhões de euros no caso BPN, pensem nisso quando hoje se preparam [para fazê-lo] outra vez em relação ao BES, ao Novo Banco. Estão ali 3900 milhões à disposição que o negócio se faça, ficando os portugueses com o prejuízo”, disse.


Para Jerónimo Sousa, “renegociar a dívida” e o "serviço da dívida" são os primeiros passos para as contas públicas respirarem e permitirem os portugueses "respirar", mas não os únicos.

“Quando nos perguntam pelo dinheiro, nós respondemos: vão buscá-lo à renegociação e ao fim das PPP, desses negócios escandalosos que têm servido para o capital encher os bolsos”, afirmou. 


Mas a noite não se ficou pelas receitas para a sustentabilidade dos serviços públicos e muito menos pelas críticas ao dinheiro “entregue ao grande capital”. Jerónimo de Sousa voltou, como sempre volta, ao PS. 

Começando por explicar que foi com “surpresa” que escutou Carlos César afirmar que “votar na CDU é votar na direita” e António Costa dizer “que está sozinho na luta contra a direita”, o líder comunista recordou que enquanto a CDU se opunha “aos desmandos do Governo PSD/CDS", o "PS assistia com abstenções violentas”. 

“Foi curiosos ver a apreciação do PS e a crítica que fez ao PSD e ao CDS, [dizendo] que estavam a ir para além da troika”, frisou, desafiando: “Era importante saber e precisar onde é que eles foram para além da troika, é que aquilo era um documento preciso e conciso (…) que corresponsabiliza os três [partidos]”.


“Foram sempre os votos dados ao PS que foram usados, não para uma política de esquerda, mas para encher a política de direita, para atacar direitos”, prosseguiu, com um novo repto: “Diga-nos o PS se estamos aqui a dizer alguma falsidade”.

Depois, afinou a ironia, para garantir que percebe a “a inquietação e o nervosismo" da cúpula do Partido Socialista, à medida que se aproxima do dia eleitoral. 

“Começa a pensar que é possível que o PSD e o CDS ganhem as eleições. E acredita [nisso], porque não contribuiu nada para o enfraquecimento deste  Governo, para a sua derrota”. E o discurso irónico subiu ainda mais um tom.


“Pois, então, queremos tranquilizar o PS. Pela luta dos trabalhadores e do nosso povo, pela luta e ação da CDU este Governo está socialmente isolado, politicamente derrotado e vai sofrer uma derrota eleitoral no dia 4 de outubro”, anotou Jerónimo de Sousa.