A arruada da CDU em Moscavide começou debaixo de um viaduto e terminou em frente a uma Igreja. Uma curta viagem, através das queixas de comerciantes e pequenos empresários afetados pela crise, até às críticas de Jerónimo de Sousa contra uma política que “abençoa” o grande capital. Pelo meio, um desafio que ficou à margem da comitiva.

O líder comunista tem insistido que não tem medo das ruas e que não precisa de “mandar documentos pelo correio” para contactar com as populações. Cumprimenta. É cumprimentado. Deseja saúde e é saudado. Pergunta pelas vidas. Mas também é questionado. 

A meio do percurso, uma voz salta para o meio da estrada. Uma exaltação. Uma mulher de preto, de mala preta presa ao braço. Gestos indignados. Um apelo repetido.  
  

“A esquerda toda unida para deitar o Passos abaixo”, grita. “Não é andarem à turra uns com os outros. Não é andar à turra esquerda com esquerda. É juntar-se a esquerda toda para deitar o Passos abaixo”.   


“Quem trabalha está a ser discriminado, está a ser escorraçado nos empregos. Estamos no tempo do fascismo nos empregos”, continua a senhora exaltada, que diz trabalhar nas limpezas da TAP há quarenta anos. “Lutem, a luta está a acabar, está a chegar o Hitler à TAP”.
As queixas atraem os jornalistas. Mas a arruada passa ao lado. A funcionária descontente é varrida pela torrente e fica sem saber se Jerónimo de Sousa está disponível para lhe dar a “esquerda unida” que pede. E os jornalistas também, quando voltaram a questionar o secretário-geral do PCP sobre o tema. 

Jerónimo de Sousa recusa cenários e esconde a matemática atrás da palavra. A “palavra dada” de que só aceita diálogo com uma política de esquerda. Algo que diz não ver no programa do PS.

Sobre o Bloco de Esquerda, cujo nome não tinha pronunciado até esta manhã, mostrou menos animosidade e desvalorizou as sondagens, que têm mostrado o partido de Catarina Martins a crescer. Quase ao lado da CDU.

“A vantagem de andar aqui há muito tempo dá-nos uma tranquilidade imensa. Primeiro, porque o bloco não é propriamente o nosso adversário. Em segundo, aquilo que as sondagens no terreno nos dizem é que esta CDU está a crescer e a crescer bem”, salientou.


“Quanto ao Bloco, anda na sua própria pista, desejo muito saúde, mas não é preocupação minha”, salientou, para depois recusar comparações sobre as campanhas dos dois partido, mas fazendo-as logo a seguir. Aponta os “20, 30 acompanhantes do Bloco”, que tem visto nas ruas, e as arruadas com centenas de apoiantes da CDU. “Não façam comparações com aquilo que não é comparável”.

Jerónimo de Sousa tem ainda tempo para uma farpa ao CDS, quando questionado sobre a eventualidade de Paulo Portas ter um “plano B” pós-eleitoral. 

“Em relação a cenários de a, b e c, também a história nos demonstra que o CDS, quando é preciso, seja com este ou com aquele, desde que esteja no poder, está sempre disponível”, anotou. “Não quero fazer nenhuma insinuação, mas este CDS está sempre pronto para tudo.” 


Já com a comitiva estacionada à volta do palanque, Jerónimo de Sousa atiraria ainda contra o Governo e as dificuldades que considera ter criado na vidas das populações, recusando que isso tenha acontecido por acaso ou mera incapacidade de governar. 

“Resulta de uma política concreta, porque este Governo, ao contrário de que muitos afirmam que é incompetente, não é. Sabe bem o que está a fazer. Faz esta política por opção própria, de exploração, de empobrecimento e exploração de quem trabalha ou de quem trabalhou”, diz Jerónimo de Sousa, com um reforço:

“Este é um objectivo central para transferir os rendimentos dos trabalhadores, dos reformados, dos pequenos e médios empresários, para o grande capital”.  


“Ultimamente, particularmente, aquelas empresas do chamado PSI20 arrecadaram dezenas de milhares de milhões de euros à custa precisamente dessa transferência, à custa dessa política que apoia, que abençoa, que protege esses senhores do capital”, conclui.