Depois do silêncio, vêm as memórias de dez anos passados em Belém como assessor e adjunto de Cavaco Silva. Tal como fizera antes, quando esteve com ele enquanto primeiro-ministro, entre 1986 e 1995, Fernando Lima lança um novo livro, porque "agora, é tempo de usar o direito à minha defesa"

"Na Sombra da Presidência” chega às bancas a 8 de setembro. Num depoimento enviado à Agência LUSA pela editora, Fernando Lima afirma que se manteve calado até agora, devido às funções que ocupava na Casa Civil do Presidente da República. Chegada a hora de escrever, relata que o "caso das escutas", em 2009, desgastou a sua relação Cavaco Silva.

O ”caso das escutas” data de agosto de 2009, quando o jornal Público fez manchete com suspeitas da Presidência da República de estar a ser "vigiada" pelo Governo. Em setembro, o Diário de Notícias adiantou que quem teria "encomendado" a notícia teria sido Fernando Lima. Foi aí que deixou a assessoria da comunicação social e que Cavaco Silva o passou para a Casa Civil da Presidência.

Ainda hoje, não compreendo que [Cavaco Silva] tenha tido comigo comportamentos que considero inexplicáveis, depois de termos convivido ininterruptamente, desde que comecei a trabalhar com ele em 1986. Confesso que não o esperava, refere o ex-assessor.

Um "processo político"

Hoje, como antes, Fernando Lima Sobre considera que o “caso das escutas” foi “um processo político que pretendia, naquela altura, desqualificar a Presidência da República e o seu titular”.

A Presidência era o único poder que não se deixara submeter à lógica de quem governava em 2009 [o PS de José Sócrates], pelo que era necessário desgastá-la para que, perante os portugueses, fosse perdendo prestígio e autoridade. Surgiram situações da vida pessoal do Presidente, como o BPN e a casa no Algarve, que o marcaram para sempre”, argumenta Fernando Lima.

Olhando para o passado, o antigo assessor de Cavaco afirma que nunca falou em escutas à Presidência, “mas sim em vigilância”.

A minha desconfiança de que Belém estava sob vigilância não era diferente da manifestada publicamente por outras entidades que se consideravam visadas pelos mesmos procedimentos”, acrescenta.

Na ideia de Fernando Lima, os responsáveis por essa vigilância eram, então, “um mistério, mas só um poder bem organizado é que teria capacidade para fazer o que motivava tantas queixas”, escreveu ainda, revelando que se viu envolvido “em situações que ultrapassaram” a sua imaginação.

Mesmo depois de deixar a assessoria de comunicação social, Lima afirma que continuou “a ser alvo”, com “situações estranhas" que promete descrever no livro. E que as mesmas “só pararam quando o Governo de José Sócrates foi substituído”.

No livro, Fernando Lima revisita dez anos no Palácio de Belém e alguns casos que marcaram as notícias, como o caso BPN, o referendo do Tratado de Lisboa ou a polémica em torno do TGV.

O ex-assessor aborda também comportamentos do chefe do Estado que foram polémicos.

As reações que mais penalizaram Cavaco Silva tiveram a ver com atitudes incompreensíveis, que se transformaram, depois, em casos políticos”, escreveu Fernando Lima, dando como exemplo a queixa do valor da sua pensão, segundo uma sinopse fornecida pela editora.