A líder do Bloco de Esquerda entende que falta ao Governo PS coragem para se afastar do caminho trilhado pelo anterior executivo PSD/CDS-PP. Catarina Martins afirmou-o perante mais de uma centena de apoiantes, num jantar comício na Baixa da Banheira, concelho da Moita.

O que falta é coragem ao governo [do PS] para se afastar, de uma forma mais determinante, do caminho que a direita trilhou e apostar a sério nos serviços públicos e na capacidade do país de responder aos seus"

No encontro, em que fez um balanço dos dois anos do acordo para garantir apoio parlamentar do BE ao governo socialista, Catarina Martins congratulou-se com aquilo que já foi feito e reconheceu que ainda há muito por fazer, ao mesmo tempo que defendia a necessidade de um PS com mais coragem, para renegociar a divida pública e apostar na melhoria dos serviços públicos.

"É preciso ter a coragem de renegociar a dívida pública do nosso país, para proteger a nossa economia, o nosso emprego, a nossas condições de vida de uma forma sustentada. E é por isso que o BE não abandona nenhuma das suas lutas. Nada seria pior, nada seria mais errado do que olhar para os números da economia, ou da criação de emprego, com arrogância", disse, citada pela Lusa.

"É preciso ter enorme humildade e responsabilidade. Saber o tanto que falta fazer, do país tão frágil que somos, com serviços públicos que não têm o que é necessário para funcionar, com pensões e salários ainda ao nível da miséria, com tantas desigualdades e com interesses económicos ainda tão, tão poderosos, a roubarem recursos e possibilidades todos os dias a quem aqui trabalha, a quem aqui vive", acrescentou.

Resposta às críticas de PSD e CDS

Catarina Martins admitiu que nem tudo terá corrido bem na governação do país ao longo dos últimos dois anos e que o país foi confrontado com algumas tragédias, mas defendeu que, ao contrário do que diz a direita, alguns problemas resultam das políticas seguidas pelo anterior governo PSD/CDS-PP.

Temos ouvido a direita falar todos os dias sobre aquilo que corre mal - e há coisas que correm mal, temos tido tragédias no nosso país e o BE nunca fecha os olhos a nada do que está mal -, mas, o que a direita se esquece de dizer é que o que corre mal, não é por não se seguir a política da direita; é por o governo não se ter afastado o suficiente da política da direita".

"Se faltam recursos ao SNS [Serviço Nacional de Saúde] não é porque não se seguiu os bons conselhos do PSD e CDS; é porque ainda não se investiu o suficiente para superar o desinvestimento de PSD e CDS na saúde; se temos um território abandonado, não é por não seguir os bons conselhos da direita, que fechou escolas, centros de saúde, tribunais, repartições de finanças, tudo por todo o país. Foi porque ainda não fizemos o investimento necessário para contrariar esse abandono do território e para dar em todo o país condições de segurança", acrescentou.

Para a líder do BE, "se o Estado falha quando entrega a empresas privadas os meios da sua proteção civil, ou cruza os braços sobre a floresta e o meio ambiente", também não é por não seguir os conselhos da direita, mas por não ter tido ainda a "coragem de uma intervenção pública direta na floresta e no controlo público direto dos meios de proteção civil".

Referindo-se ao surto de legionella, que terá tido origem no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, e que já provocou quatro mortos, Catarina Martins também atirou responsabilidades para os partidos da direita, PSD e CDS-PP.

"Quando olhamos para a tragédia do surto de legionella, que naturalmente assusta as pessoas e teve vítimas concretas (…), lamentamos, mas não basta lamentar, não basta dizer que se calhar era possível fazer mais. É preciso também lembrar que a direita acabou com as inspeções obrigatórias da qualidade do ar, que o BE propôs e que a direita votou sempre contra e que têm de estar ativas para proteger o país. O que nos falta não é o que a direita propõe, porque a direita não propõe nada aos seus", concluiu.