A porta-voz do BE defendeu, esta sexta-feira, que a compra de dívida pelo Banco Central Europeu vem tarde e procura «tratar uma constipação quando temos uma pneumonia». Para Catarina Martins, só a reestruturação permitirá recuperar salários e o emprego. As posições da líder bloquista foram assumidas durante num jantar-comício no Porto, no âmbito das jornadas parlamentares do partido.

De acordo com a Lusa, no discurso, a dirigente do BE teceu críticas duras à recente decisão do BCE e à resposta europeia à crise. Catarina Martins falou da participação em Atenas na campanha do Syriza para defender o partido de esquerda radical grego dos que falam de uma «suavização» do programa ou o apontam como uma ameaça.

«O Syriza não deixou de ser de esquerda. Alexis Tsipras é claro: na Grécia não pode mandar mais a Comissão Europeia e Angela Merkel, a vida na Grécia não pode mais responder aos apetites dos mercados», afirmou, sublinhando que a primeira proposta dos gregos é a realização de uma conferência europeia de reestruturação das dívidas.

Sobre o programa de compra de dívida em larga escala do BCE, a dirigente bloquista considerou que vem «demasiado tarde e é pouco de menos». «É demasiado tarde, porque agora se está a tentar tratar uma constipação quando o que temos é uma pneumonia, e é demasiado pouco porque o impacto é de facto muito pequeno para países como Portugal cujo montante da dívida cresceu tanto nestes anos», afirmou.

«Quando era preciso responder a esse problema, quando os juros eram altos e houve toda a especulação sobre o euro, o que fez a Europa e o BCE, resolveu o problema dos juros? Não, a Europa juntou-se toda para impor austeridade aos países», observou.

Catarina Martins afirmou que o impacto do programa «é tão pequeno que não alivia o país da carga monstra [de dívida] que custa mais do que se gasta com o Serviço Nacional de Saúde» e «vem tratar do problema dos juros quando já estão mais baixo».

«Do que o BCE não trata é do que tem de ser tratado, é do emprego, é do salário. O problema na Europa não é a falta de dinheiro nos bancos, é a falta de salário, é a falta de emprego, é isso que destrói a economia, o que o BCE anunciou agora, devia ter anunciado há cinco anos, como fizeram os Estados Unidos e o Reino Unido», defendeu.

Porta-voz do BE ironiza com «mea culpa» do PS sobre o Syriza

Catarina Martins ironizou também sobre o «mea culpa» do PS, por «agora achar o Syriza interessante», e exigiu uma clarificação aos socialistas sobre a reestruturação da dívida pública portuguesa.

Catarina Martins sustentou que «quem acha a reestruturação da dívida boa ideia na Grécia, tem de ter a coragem de a defender» também em Portugal.

«Vejo com alguma ironia como há quem agora até ache o Syriza interessante, até o PS agora acha interessante que o Syriza possa ganhar eleições. Ainda bem, mas devo dizer que nos lembramos de quem negociou troikas, sabemos como há muito pouco tempo o PS chumbou a proposta para a reestruturação da dívida, parece que na Grécia é boa ideia, mas em Portugal nem por isso», afirmou.

Ao longo do discurso, a líder bloquista visou por diversas vezes os socialistas com críticas, associando o PS às decisões que impuseram a austeridade na Europa.

«Sabemos bem como o PS elegeu Jean-Claude Juncker para presidente da Comissão Europeia, o homem que presidia ao Eurogrupo e que inventou as troikas, que criaram a destruição nos nossos países, talvez seja um “mea culpa”, mas é um “mea culpa” tardio, e nestas coisas é bom sermos claros», advogou.