O dirigente do Bloco de Esquerda (BE) Pedro Filipe Soares disse esta terça-feira que não vê uma «incompatibilidade de posições» entre o seu papel de líder parlamentar e de candidato à liderança do partido contra a atual direção.

O Bloco, sustentou o líder parlamentar, tem a obrigação de mostrar que é um «partido democrático» que «sempre conseguiu viver com pluralidade de ideias».

Nesse sentido, a apresentação de uma moção alternativa à atual direção e a sua candidatura à liderança não representam uma «incompatibilidade», disse Pedro Filipe Soares em conferência de imprensa na sede do BE, em Lisboa.

Pedro Filipe Soares mostrou-se crítico para com o passado mais recente do Bloco, criticando nomeadamente o relacionamento «com outros partidos, particularmente com o PS», e lamentando a «perda de combatividade e irreverência".

«Hoje as pessoas olham para a esquerda, olham para o BE, e pedem respostas, pedem soluções», sublinhou.

A Convenção do Bloco de Esquerda realiza-se a 22 e 23 de novembro e os atuais coordenadores, Catarina Martins e João Semedo, já disseram que se irão recandidatar.
Pedro Filipe Soares diz que a moção que apresentou esta terça-feira representa uma «vaga de fundo» no Bloco, sendo subscrita por mais de 860 pessoas.

Nesse sentido, acrescentou, é necessário «resgatar a esperança» dos portugueses, nomeadamente das «gerações perdidas para a precariedade e emigração».

A moção, diz também o líder parlamentar, «resgata» a identidade do Bloco e a «pluralidade e capacidade de intervenção» do partido.

A moção política IX Convenção «Moção Bloco Plural», intitulada «Bloco Plural, fator de viragem!», que tem Pedro Filipe Soares como subscritor número um, foi apresentada numa conferência de imprensa de cerca de meia hora.

Na moção, é dito que «urge regressar às origens e recuperar a identidade do BE num novo contexto político».

«É preciso recuperar a combatividade, a irreverência, a credibilidade e a criatividade. Dissemos desde o início que a afirmação do BE era indispensável para transformar a esquerda. Esse horizonte socialista continua à nossa frente», lê-se no texto.

A Europa «na era da austeridade» é criticada no documento, sendo também passado um «cartão vermelho à chantagem europeia», reclamando os bloquistas que assinam a moção que «a Europa da finança não tem o aval popular».

A saída do euro, defendem, «não é uma prioridade», mas a permanência na moeda única «não é um dogma».

Num plano interno, Pedro Filipe Soares e restantes assinantes da moção «Bloco Plural» advogam que a reestruturação da dívida «é uma condição da libertação do país e não pode estar dependente das chantagens sobre o isolacionismo económico».

A rejeição do tratado orçamental é outra das bandeiras dos assinantes, que chamam a atenção para os postos de trabalho que desapareceram e o aumento do défice e da dívida de Portugal.

Uma «nova agenda laboral centrada no valor do trabalho e na democracia» é reclamada, ao mesmo tempo que se critica a «subserviência da UGT».

O Bloco, com a aprovação desta moção, provará que os partidos e os políticos «não são todos iguais», e o partido, que «perdeu parte da confiança popular que tinha», deve ter um projeto «apontado ao socialismo e inconformado com o rotativismo e a alternância sem alternativa».

O PS, mesmo com António Costa a líder, está ligado a matérias criticadas por Pedro Filipe Soares na conferência de imprensa, como o tratado orçamental, e, diz a moção, «não obstante o apoio popular» ao partido «por alguns setores da esquerda» com quem é possível dialogar, «é errado desejar que o BE possa adornar um governo 'à la Hollande'».

Coordenadores do BE propõem diferenciar funções e alargar paridade

Os atuais coordenadores do Bloco de Esquerda (BE), João Semedo e Catarina Martins, recandidatam-se à liderança do partido propondo a continuidade deste modelo de coordenação, mas com «funções diferenciadas», que para já não descrevem.

Na moção que apresentam à IX Convenção do BE, os dois coordenadores consideram que «o Bloco pagou o preço de ser o primeiro partido português a estabelecer a paridade de género na sua representação», afirmam manter «a coerência dessa escolha» e propõem «a consagração da paridade como regra democrática e política da esquerda, estabelecendo-a em 50/50 na Mesa Nacional e à Comissão Política».

A exclusão de alianças com forças políticas que não rejeitem o Tratado Orçamental e as atuais diretrizes da União Europeia, a defesa da nacionalização da banca e da saída da NATO e a possibilidade de uma saída do euro são outras posições expressas nesse documento - subscrito também, entre outros, por Francisco Louçã, Fernando Rosas, Mário Tomé, João Teixeira Lopes, Mariana Mortágua, Marisa Matias, António Chora e Pedro Soares.