A coordenadora do BE Catarina Martins defendeu hoje que uma convergência à esquerda tem que passar por um «programa» e pela «rutura com a austeridade», acusando a ex-dirigente bloquista Ana Drago de ter passado a privilegiar «soluções de governação».

«Continuamos a achar que a aliança baseada num programa que seja capaz de rutura com a austeridade, sendo um caminho difícil, que demora tempo, é aquele que deve ser seguido. Nos últimos seis meses, a Ana Drago tem tido uma posição diferente e considera que mais importante do que debater este programa de esquerda, do que continuar a juntar forças para este programa de esquerda, é preciso pensar em soluções de governação, ainda que este programa deixe de ser o centro dessa aliança de esquerda», afirmou Catarina Martins.

A coordenadora bloquista defendeu que «é importantíssima uma rutura com a austeridade», argumentando que «as convergências que podem mudar alguma coisa na vida das pessoas são as convergências em torno de um programa de esquerda».

Esse programa de esquerda, sublinhou, tem «três pontos claros»: «reestruturação da dívida, rejeição do Tratado Orçamental, proteção do estado social».

«As pessoas estão pouco interessadas sobre os arranjos entre os partidos, estão muito mais interessadas nas condições de vida que vão ter», disse aos jornalistas, à saída da embaixada da Palestina em Lisboa, onde se encontrou com o embaixador.

A Fórum Manifesto, corrente fundada por Miguel Portas e à qual pertencia a ex-dirigente e ex-deputada bloquista Ana Drago, decidiu no sábado desvincular-se do Bloco de Esquerda e contribuir para "novas plataformas políticas abrangentes".

No domingo, Ana Drago anunciou a sua saída do Bloco e a renúncia ao lugar de deputada da Assembleia Municipal de Lisboa, alegando divergências sobretudo no processo de convergências políticas.

«A Ana Drago tem acompanhado a direção do BE desde há muitos anos, fez parte da orientação política do BE, esteve com toda a orientação do BE até recentemente. Há seis meses mudou de opinião, tem tido uma opinião diferente. As pessoas têm direito a mudar de opinião, portanto, essa mudança de opinião faz com que não seja surpreendente a sua saída neste momento», afirmou hoje Catarina Martins.

A coordenadora bloquista referiu-se à «criação de novas forças, novos movimentos, que apelam à unidade da esquerda» nos últimos seis meses, numa referência ao movimento 3D ou ao partido LIVRE, de Rui Tavares, considerando que «estes movimentos de cisão não têm sido capazes de criar nenhuma verdadeira unidade, ou seja, são apenas dispersão».

«Os projetos de cisão não fazem a unidade da esquerda. O que é preciso sim, é ser capaz de continuar a trabalhar, a dialogar», declarou, manifestando-se convicta de que não se deve «desistir de um programa comum à esquerda que tenha verdadeira capacidade de rutura com a austeridade».

«É esse programa que deve dirigir todas as conversas, todos os consensos e todas as uniões à esquerda. Sem um programa forte correríamos sempre o risco de termos governos que não fossem capazes de romper com a austeridade», sustentou.

De acordo com Catarina Martins, «o papel do Bloco de Esquerda não é apoiar governos que mantêm uma política de austeridade», admitindo, contudo, que, como o país, o partido vive também «uma situação difícil».

«Políticas iguais ou muito semelhantes protagonizadas por outras pessoas ou outros partidos não mudam nada na vida das pessoas», frisou.

Catarina Martins sublinhou que, mesmo sem ser governo, o Bloco criou soluções legislativas que fizeram do país «mais decente» e que a «possibilidade de alianças que o BE abriu permitiu que o Tribunal Constitucional ordenasse reposição de salários, de subsídios de desemprego e de doença».

«Há de facto diálogos concretos e que têm impacto na vida das pessoas», declarou.