A dois dias das eleições autárquicas, as sondagens traçam um cenário negro para o PSD nas duas principais cidades do país e há já quem não poupe nas palavras para criticar uma liderança cada vez mais “em cheque”. A campanha chega ao fim esta sexta-feira, mas dos principais assuntos ligados às autarquias pouco se ouviu. O habitual tom de crispação entre esquerda e direita centrou-se nas questões nacionais que pouco ou nada têm a ver com os municípios. Pelo meio, houve alguns casos e momentos caricatos.

Passos Coelho tem insistido que “o PSD não precisa de dar sentido nacional às eleições autárquicas”, mas, dentro do partido, antecipa-se a derrota eleitoral e pedem-se responsabilidades.

Há, de resto, quem não tenha pudor em usar as palavras mais duras para descrever a posição em que o partido se encontra. Caso de Sofia Vala Rocha, número cinco da lista do PSD a Lisboa, que, numa entrevista ao Diário de Notícias, acusou Passos de ter “matado” o PSD na capital. “Homicídio qualificado”, sublinhou.

Ainda que para Passos as notícias da morte do seu partido possam ser manifestamente exageradas, nos últimos dias muito se tem falado de manobras de bastidores e de uma eventual candidatura de Rui Rio à liderança do PSD.

Rio não o assume publicamente, mas estará já a preparar a oposição a Passos. Segundo o jornal Público, o antigo presidente da câmara do Porto já garantiu a “meio PSD” que o vai fazer “em qualquer circunstância”. Também o Expresso noticia esta sexta-feira que Rio já foi desafiado a “dar corda aos sapatos”.

Não será logo na noite eleitoral, porém, uma vez que o antigo autarca quer ter tempo para analisar os resultados do PSD.

E para os sociais-democratas olhar para os números de domingo não será uma tarefa fácil. 

Na capital, o PSD parece estar a concorrer ao segundo lugar e, mesmo assim, não se está a sair bem nisso. As sondagens mais recentes indicam que Fernando Medina (PS) deverá ter maioria e Assunção Cristas (CDS) mais votos que Teresa Leal Coelho (PSD).  A líder do CDS foi, de resto, umas das grandes figuras desta campanha e assumiu-se como a única alternativa a Medina. Escolha de última hora, Leal Coelho não parece convencer os lisboetas e reúne, por esta altura, apenas 12% das intenções de voto.

Já na Invicta, Rui Moreira (independente) parece ter-se distanciado de Manuel Pizarro (PS) nos últimos dias, depois de as sondagens terem indicado um empate entre os dois. Quanto ao candidato do PSD, Álvaro Almeida, não deverá ir além dos 11%.

Desta feita, e a julgar pelas sondagens, as derrotas em Lisboa e no Porto serão pesadas e históricas para o PSD.  

A campanha termina esta sexta-feira, mas o sumo político que se extrai do debate protagonizado pelos principais líderes partidários, e no que às questões do âmbito dos municípios diz respeito, é muito pouco.

Como a social-democrata Manuela Ferreira Leite fez notar, esta quinta-feira, na TVI24, a campanha passou ao lado de temas fundamentais para as autarquias, como é o caso da descentralização. “Uma discussão a sério sobre a as autárquicas teria passado pela descentralização”, frisou. Outros temas como o estudo das fontes de financiamento das câmaras ou a degradação dos transportes nos grandes centros urbanos também ficaram em segundo plano.

Ao invés, trocaram-se acusações sobre o rating, a lei da imigração e a polémica em torno de Tancos, no habitual tom de crispação entre esquerda e direita.

Pelo meio, houve alguns casos e aqui foi o PS que ficou pior na fotografia. 

A grande polémica da campanha teve como protagonista Fernando Medina, depois de ter sido noticiado que o Ministério Público estava a investigar a compra de um imóvel pelo atual autarca de Lisboa. O presidente da câmara lisboeta mostrou-se indignado e disponibilizou na página da Internet da sua candidatura vários documentos ligados a este caso.

Depois, foi o secretário-geral do PS e primeiro-ministro, António Costa, a protagonizar novo "incidente" na campanha. Durante uma entrevista à Rádio Renascença, Costa não quis falar sobre soluções autárquicas para o Porto e, irritado, terminou abruptamente a entrevista. 

Incidente mais caricato foi quando a carrinha da campanha de Assunção Cristas foi bloqueada pela EMEL por estar mal estacionada. 

Na caça aos votos, os candidatos desdobraram-se em tarefas e talentos: andaram de mota, jogaram bilhar e até deram música aos eleitores. Só no domingo se saberá, porém, quem foi realmente na cantiga.