Há mais vozes no seio do PSD a fazerem-se ouvir, não só lamentando o "desastre eleitoral" nas autárquicas de domingo, como a apontar responsabilidades ao presidente do partido, Pedro Passos Coelho, pedindo que saia da liderança. Ontem, a primeira a fazê-lo foi Manuela Ferreira Leite, na TVI. Passos não se demite, mas pondera não se recandidatar. Está a refletir.

Agora, é o líder interino da concelhia de Lisboa do PSD, Rodrigo Gonçalves, onde o PSD só conseguiu ficar em terceiro (11,23%), com metade dos mandatos do CDS (que alcançou 20,57% dos votos) e que se tornou a segunda força política na capital. A candidatura de Teresa Leal Coelho ficou ainda a léguas dos 42,02% e oito mandatos da candidatura socialista do autarca reeleito, Fernando Medina. O que se passou, afinal?

O que houve foi naturalmente uma má interpretação do que era a necessidade dos lisboetas e as escolhas do PSD refletiram isso. [Passos Coelho] escolheu mal o candidato [Teresa Leal Coelho]"

Contas feitas, o PSD alcançou o pior resultado de sempre na Câmara de Lisboa. Este “desastre eleitoral”, como classificou o líder interino da concelhia, alastrou-se ao “distrito todo”, mas “Lisboa tem um impacto maior por ter uma leitura nacional”, disse â Lusa.

A concelhia tinha uma estratégia delineada, que foi rejeitada por Passos. A partir desse momento não conseguimos inverter uma tendência que se previa desastrosa. Uma série de cenários que não favoreceram o PSD”.

Apesar de na noite eleitoral a candidata a presidente da Câmara Municipal de Lisboa ter dito que o desfecho era “exclusiva responsabilidade” da sua equipa, na opinião de Rodrigo Gonçalves os candidatos às eleições autárquicas não devem ser penalizados pelos resultados, uma vez que a estratégia foi definida pelo presidente do partido. “Não podemos responsabilizar os nossos autarcas”, advogou. Para si, cabe ao líder “assumir a responsabilidade porque ele é que definiu a estratégia”.

Teresa Leal Coelho é uma extensão de Pedro Passos Coelho. O erro estratégico nunca é dela, porque ela vem fazer um favor ao líder”.

Quanto ao futuro na capital, Gonçalves considerou “natural que ela deva assumir responsabilidades como vereadora”, mas não pode ser “responsabilizada por tudo”.“Claro que Teresa Leal Coelho tomou decisões e escolheu nomes, mas a estratégia foi definida pelo líder do PSD”.

Já a nível nacional, “o importante agora é que o partido se reconstrua de dentro para fora” e que faça o mesmo em Lisboa “nos próximos quatro anos para voltar a ganhar”. Para isso, é “importante que se altere a estratégia e a linha política”.

Na sua opinião, Passos Coelho “recebeu um partido pujante, forte, disponível para governar e hoje deixa um partido completamente moribundo, amorfo”.

Para o responsável do PSD em Lisboa, os resultados alcançados pelos sociais-democratas foram um “cartão vermelho por parte dos portugueses a Pedro Passos Coelho” e uma “penalização por parte do eleitorado ao que tem sido a sua forma de fazer oposição”. “Neste momento temos de facto que discutir as consequências no curto espaço”, vincou.

Quanto às Juntas de Freguesia, Gonçalves congratulou-se com o facto de o PSD ter conseguido manter quatro das cinco que lidera no atual mandato, não querendo comentar a perda das Avenidas Novas, onde o presidente que agora deixa o cargo é seu pai.

Distrital de Aveiro pede "grande abanão" e diz que Passos deve sair

Também o presidente da distrital de Aveiro do PSD, Salvador Malheiro, defende que o partido precisa de um "grande abanão" e que Pedro Passos Coelho deve sair da liderança.

Penso que neste momento Passos Coelho não tem condições para continuar a liderar o partido"

Salvador Malheiro disse-o à Lusa, apesar de reconhecer em Passos Coelho "um enorme estadista, alguém que irá ficar na história e a quem todos devem muito".

O presidente da distrital do PSD, e também da Câmara de Ovar, onde foi reeleito para um segundo mandato, disse que o partido sentiu um "forte abalo" nas eleições autárquicas, designadamente com resultados "extremamente negativos" nos grandes centros urbanos, como em Lisboa e no Porto.

"Eu próprio tive um resultado histórico na Câmara de Ovar - foi o maior resultado de sempre desde que há democracia - mas ao mesmo tempo no nosso distrito perdemos três câmaras, duas para o PS e uma para o CDS-PP. Continuamos a ser um distrito com mais câmaras do PSD, mas, naturalmente, é um resultado que nós não esperávamos", observou.

Estes resultados fazem com que seja necessário uma "reflexão global", algo que, segundo o mesmo, está previsto acontecer no Conselho Nacional dos social-democratas, que está agendado para terça-feira.

Penso que está na altura de dar um grande abanão na estrutura do nosso partido, no sentido de voltar a dar esperança aos portugueses e poder almejar a curto prazo voltar a ser poder e estar a gerir os desígnios do país. O futuro do partido "deverá seguir com uma nova liderança que deve surgir de forma natural no próximo congresso, com eleições diretas".

Salvador Malheiro considerou ainda que Passos Coelho foi "absolutamente decisivo" para tirar o país de um período "extremamente complicado", afirmando que "grande parte do sucesso que aparentemente se vive em Portugal se deve ao seu esforço à sua dedicação e resiliência".

Ele continua a falar correto, mas os portugueses neste momento sentem alguma dificuldade em receber as suas mensagens e ele próprio (…) já terá reconhecido tudo isso".