O ex-Presidente português Jorge Sampaio destacou que, com a vitória de António Guterres na sexta ronda para a eleição do próximo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), “triunfou uma forma participada, contra “manobras de última hora”.

Em declarações, via telefone, à SIC Notícias, o ex-Presidente da República referiu-se assim ao surgimento, a meio do processo eleitoral, da comissária europeia para Orçamento e Recursos Humanos, Kristalina Georgieva, apoiada por Bulgária e Alemanha.

O resultado desta quarta-feira provou que tal “manobra” era “contra o sentimento geral” e impôs um “processo participado”, frisou Jorge Sampaio, ex-enviado especial da ONU e que preside atualmente à Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios.

O antigo primeiro-ministro português António Guterres foi hoje indicado como favorito para secretário-geral das Nações Unidas pelo Conselho de Segurança à Assembleia Geral.

A eleição de Guterres – que precisa agora de ser confirmada pela Assembleia-Geral da ONU – “é uma esperança, um sangue novo”, que inaugura uma “nova época” para a organização, considerou Jorge Sampaio, sublinhando que o ex-alto comissário não teve tarefa “fácil”.

O ex-chefe de Estado português elogiou as “qualidades” e “capacidades” de Guterres, que já felicitou “pessoalmente”, pelo “momento notável” e “pela forma como a sua candidatura foi gerida”.

Sampaio enalteceu ainda a diplomacia de Portugal. “Somos vistos de uma forma muito positiva, com capacidade de diálogo em todas as direções”, frisou. “É uma grande notícia” para “um país que tem necessidade de boas notícias”, disse.

O sucessor do atual secretário-geral, Ban Ki-moon, terá pela frente “tarefas gigantescas”, antecipa Sampaio.

Santos Silva considera que Guterres "representa a voz" de todos os 193 países da ONU

O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, congratulou-se, esta quarta-feira, com a vitória de António Guterres no Conselho de Segurança das Nações Unidas e garantiu que será um “secretário-geral que representa a voz" de todos os 193 países da organização.

O Governo português recebeu a notícia da vitória de Guterres no Conselho de Segurança, que esta quinta-feira deverá indicar o seu nome para a Assembleia-Geral, com “muito orgulho, muita alegria, muita satisfação”, disse à Lusa o chefe da diplomacia portuguesa.

António Guterres tem a capacidade de estabelecer pontes. Ele vai ser um secretário-geral que representa a voz das Nações Unidas como tal, de todas as nações, de todos os 193 países que fazem parte das Nações Unidas”, afirmou Augusto Santos Silva.

O chefe da diplomacia portuguesa sublinhou o facto de a candidatura portuguesa não ter recebido, hoje, qualquer voto de desencorajamento, algo que “não é frequente”.

Isto quer dizer também que a candidatura de António Guterres não resulta de nenhum jogo de bastidores nem de um acordo de última hora, resulta sim dos seus méritos”, destacou.

Segundo Santos Silva, “venceu este processo eleitoral quem se submeteu a todas as suas etapas e todas as suas regras, quem apresentou a sua candidatura com toda a transparência e em tempo, quem apresentou as suas ideias e visão para as Nações Unidas e convenceu os membros do Conselho de Segurança com as suas ideias e o seu programa e quem foi vencendo sucessivamente todas as votações indicativas”.

Para o ministro, “a grande força da candidatura de António Guterres é o seu mérito pessoal, a sua qualidade política, o conhecimento profundo que tem do Mundo e, em particular, do sistema das Nações Unidas, o seu comprometimento com a causa do multilateralismo, a paz, a segurança e o desenvolvimento e a sua enorme experiência política e como alto dirigente das próprias Nações Unidas”.

Por outro lado, “também foi muito importante para esta grande vitória de Portugal a unidade dos portugueses”, que foi “um dos trunfos principais desta candidatura, que fez a diferença, aliás, em relação a outras candidaturas”.

Santos Silva aludia à candidatura de Kristalina Georgieva, que só foi apoiada pela Bulgária na semana passada, depois de Sófia ter desistido da candidatura de Irina Bokova, que apoiara em primeiro lugar. Santos Silva apontou “o apoio, desde a primeira hora, do Presidente da República, de todo o parlamento e de toda a sociedade civil”.

Questionado sobre a entrada, apenas na semana passada, da comissária europeia Kristalina Georgieva, na corrida à liderança da ONU, o ministro respondeu: “Com a mesma serenidade e tranquilidade que assisti às sucessivas votações e à apresentação, na semana passada, da candidatura da comissária Kristalina Georgieva, com a mesma serenidade e tranquilidade olho para os resultados desta votação”.

“Saúdo todos os que participantes. A qualidade dos candidatos só reforça o mérito de António Guterres”, disse.

Augusto Santos Silva revelou ter assistido à comunicação dos resultados da votação “muito próximo” do antigo primeiro-ministro e foi, por isso, “dos primeiros a endereçar-lhe as felicitações que ele merece”.

O ministro relevou “o enorme esforço feito pela diplomacia particular, em particular pela missão permanente portuguesa em Nova Iorque - o representante português, o embaixador Álvaro Mendonça e Moura, foi um elemento absolutamente decisivo nesta candidatura -, pela Direção Geral de Política Externa e pela muito pequena equipa que se constituiu no Ministério e que foi incansável, quer do ponto de vista do esforço quer da inteligência que colocou neste processo”.

“A todos gostava de agradecer, em nome do Governo português”, referiu.

Sobre o facto de ter vencido este processo um homem da Europa Ocidental – e não uma mulher da Europa do Leste, como alguns dirigentes políticos, entre os quais o atual secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e organizações não-governamentais defendiam -, Santos Silva salientou que Guterres “nunca foi um intruso neste processo”.

Um dos argumentos principais que utilizámos é que não devemos olhar para 2017 com os olhos anteriores a 1989. Grande parte dos candidatos da Europa de Leste eram candidatos de países da União Europeia”, disse.

O antigo primeiro-ministro português ficou à frente, com 13 votos favoráveis, e não recolheu nenhum veto na sexta votação do Conselho de Segurança - com 15 membros - das Nações Unidas, em Nova Iorque, para eleger o próximo secretário-geral da organização.

O presidente do Conselho de Segurança das ONU disse aos jornalistas, no final da sexta votação do Conselho de Segurança para secretário-geral, que o organismo espera recomendar "por aclamação" o nome de António Guterres na quinta-feira.

Leia também o perfil completo do engenheiro católico e socialista que vai liderar a ONU