O candidato a secretário-geral das Nações Unidas António Guterres defendeu na quinta-feira à noite que o mundo está caótico, com relações de poder que não são claras, uma multiplicação de conflitos e uma impunidade crescente.

O ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados falava num jantar-conferência inserido nas jornadas parlamentares do PSD, em Santarém, em que condenou a falta de regulação internacional e os obstáculos à circulação de pessoas, referindo que o mesmo não acontece com a circulação de dinheiro e de bens e serviços.

Apontando as migrações como "indispensáveis" às sociedades envelhecidas europeias, como a portuguesa, António Guterres declarou-se a favor da "criação de vias regulares de movimentos migratórios, como fazem países como Canadá e Austrália", e propôs também alterações à cooperação económica tendo em conta a mobilidade humana.

O antigo primeiro-ministro socialista considerou "dramática" a evolução do número de refugiados nos últimos anos, mencionando que em 2010 fugiam das suas comunidades, diariamente, 11 mil pessoas e que em 2014 já eram mais de 42 mil por dia.

Num enquadramento desse fenómeno, declarou: "Estamos a assistir no mundo a uma multiplicação de conflitos, ao mesmo tempo que velhos conflitos não têm solução, o que quer dizer que a comunidade internacional perdeu capacidade de prevenção de conflitos e de solução de conflitos".

A possibilidade de prevenir, conter e resolver os conflitos está hoje consideravelmente diminuída. Há uma impunidade crescente de quem começa conflitos, de quem viola o direito internacional humanitário, de quem faz as mais horríveis violações de direitos humanos. E há uma imprevisibilidade crescente em relação a acontecimentos que se desenvolvem com consequências humanitárias trágicas, uma das quais é o aumento dramático do número de refugiados nos últimos tempos", considerou.

António Guterres disse que nos tempos da Guerra Fria havia "um mundo bipolar", mas, "em momentos decisivos, quando a coisa se tornava demasiadamente perigosa, normalmente, o pior era evitado" e, mais tarde, houve "a hegemonia de uma única potência no mundo, os Estados Unidos", que determinavam o rumo dos conflitos.

Hoje já não temos um mundo bipolar, ainda não temos sequer um mundo multipolar, temos um mundo caótico, de alguma forma, em que as relações de poder não são claras. E, mesmo que tivéssemos um mundo multipolar, é muito perigosa a multipolaridade quando não há 'governance' multipolar", prosseguiu.

Neste ponto, Guterres recordou "a Europa da Primeira Grande Guerra", dizendo que "é um exemplo de uma sociedade multipolar, mas que, na ausência de um sistema de 'governance', foi deixando que os conflitos se arrastassem".

Todos percebiam que se caminhava para o abismo, mas ninguém foi capaz de evitar o abismo. E deu-se a Primeira Guerra Mundial, que está, aliás, na origem dos problemas que ainda hoje vivemos", acrescentou.

Um federalista europeu que defende parceria com Turquia 

O antigo primeiro-ministro António Guterres declarou na quinta-feira à noite ser "um federalista europeu frustrado", manifestando-se contra a atual "corrente de renacionalização das políticas", e defendeu uma parceria entre a União Europeia e a Turquia.

O que eu vou dizer agora só me compromete a mim próprio: Eu sou um federalista europeu, frustrado, mas sou um federalista europeu. Eu acho que a Europa atravessa uma fase da sua história em que só tem hipótese de ser relevante à escala mundial se estiver unida", afirmou António Guterres.

O ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados defendeu que "tudo o que seja ter mais Europa faz sentido" e declarou ser "defensor de sistema europeu de asilo e defensor de uma política europeia de imigração", alegando que "não é preciso ir muito longe na redução de soberania dos estados para isso".

Agora, acho que eu estou um bocadinho contra a maré nesta matéria. Acho que as opiniões públicas têm evoluído num sentido de cada vez mais desconfiarem de que a Europa é a solução para os problemas que têm. Por isso, estamos numa fase particularmente difícil, em que, sendo necessário mais Europa, a expectativa da maior parte das opiniões públicas é que haja menos Europa", considerou.

A este propósito, advertiu que "um país como a Alemanha sozinho não conseguirá gerir esta crise de refugiados", que "haverá um momento em que a Alemanha não será capaz, por muito grande que seja a economia e a dimensão da sociedade alemã".

Ou nos unimos todos para enfrentar os desafios do futuro, ou a Europa perderá progressivamente relevância no quadro internacional. Essa para mim é uma evidência, mas reconheço que isto vai contra a corrente atual, que é uma corrente de renacionalização das políticas e das visões sobre o futuro", concluiu.

Quanto à Turquia, o antigo primeiro-ministro disse que sempre se bateu por "uma atitude justa" e por "um conjunto de critérios claros" para a sua entrada na União Europeia - "que aliás existem, são os critérios de Copenhaga", salientou.

Mas se esses critérios forem respeitados, a Turquia deve entrar na União Europeia. A Turquia não deve ser mantida numa situação de incerteza em relação ao seu futuro", defendeu, argumentando que isso "afasta naturalmente a Turquia da Europa" e "diminui a influência da Europa no mundo".

Referindo-se à "crise de refugiados" que a Europa enfrenta, declarou: "A parceria entre a União Europeia e a Turquia é, do meu ponto de vista, uma questão absolutamente central para enfrentar esta crise, como muitos outros aspetos do relacionamento da Europa com a sua vizinhança".

Em seguida, deixou um lamento: "Tenho muita pena que alguns europeus tenham colocado esta questão em termos tais que o próprio povo turco se ponha a si próprio a pergunta se alguma vez poderá entrar na União Europeia, o que naturalmente facilita todos aqueles que na Turquia puxam para outros destinos, para outras posições, para outros posicionamentos, com alguns riscos efetivos no nosso relacionamento e no nosso comportamento coletivo".

Passos "é um apoio preciosíssimo"

António Guterres agradeceu na quinta-feira à noite ao presidente do PSD, Passos Coelho, o "apoio preciosíssimo" que está a dar à sua candidatura a secretário-geral das Nações Unidas, em Portugal e junto do Partido Popular Europeu (PPE).

Guterres agradeceu aos sociais-democratas, dizendo-lhes que tinham falado ao seu coração, e referiu que o apoio de Passos Coelho não se limita a Portugal, mas estende-se ao exercício de "influência na família política" do PSD, o PPE. "É um apoio preciosíssimo", considerou.

O ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados chegou a este jantar acompanhado pelo líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, pelas 20:10 - Passos chegou mais tarde, às 20:45, vindo de Bruxelas - e permaneceu no local até cerca da meia-noite, após ter discursado e respondido a perguntas dos deputados.

No final, questionado pelos jornalistas sobre o facto de estar presente nas jornadas no PSD e não nas do PS, que se realizam entre hoje e sábado, em Vila Real, o socialista respondeu que manifestou disponibilidade "para colaborar com todas as forças políticas" na discussão do tema das migrações e dos refugiados.

Irei em breve a uma realização do PS, também nessa matéria. Portanto, não há discriminação em relação a nenhuma força", acrescentou Guterres, reiterando que está "reconhecido e sensibilizado" pelo apoio que o PSD tem dado à sua candidatura a secretário-geral das Nações Unidas.

O antigo primeiro-ministro considerou que isso "é também a demonstração de que o país se consegue unir em relação a objetivos nacionais" e assinalou igualmente o facto de "todas as forças políticas terem uma posição positiva em matéria de asilo e de imigração".

Passos Coelho usou da palavra neste jantar para "reafirmar publicamente" que Guterres "contará com um entusiástico apoio do PSD" na sua candidatura a secretário-geral das Nações Unidas.

O presidente do PSD disse que "seria uma enorme honra para Portugal poder contar com essa liderança à frente das Nações Unidas".

É não só o português em melhores condições de poder fazer esta candidatura com maior sucesso, como o que está em condições de poder desempenhar essa função honrando o país, com certeza, mas, sobretudo, dando boa conta do recado, como se costuma dizer em bom português", considerou.

No período de questões, o deputado do PSD Duarte Marques reforçou esta mensagem, afirmando: "O PSD não apoia a sua candidatura porque fica bem, nós achamos mesmo que é o melhor candidato, é a melhor pessoa para ser o secretário-geral das Nações Unidas".

Depois, perguntou-lhe como é que o PSD pode "ajudá-lo ainda mais a ser eleito".

A solidariedade que o doutor Pedro Passos Coelho me ofereceu, em relação não apenas ao apoio do PSD em Portugal, mas em relação à família política a que o PSD pertence, é um inestimável contributo para uma candidatura que, como é sabido, enfrenta um conjunto de problemas complexos em relação aos critérios que possam vir a ser definidos, em matéria de género ou questões regionais", respondeu Guterres.

O antigo secretário-geral do PS acrescentou que "o facto de em Portugal haver uma situação em que forças como o PSD suportam esta candidatura e exercem influência na família política, que é determinante à escala global, é um apoio preciosíssimo".

Portanto, eu não me atrevo a pedir mais, pelo contrário, só posso é agradecer o muito que está a ser feito", concluiu.