O secretário-geral do PS recusou hoje o tradicional conceito de «arco da governação» que exclui as forças políticas à esquerda dos socialistas, mas a porta-voz do Bloco de Esquerda criticou a «indefinição» e os «silêncios» do PS.

Estas posições divergentes foram assumidas em declarações separadas feitas aos jornalistas, primeiro pelo secretário-geral do PS, António Costa, depois pela porta-voz do Bloco de Esquerda, após uma reunião entre as direções destes dois partidos, que durou cerca de uma hora.

Acompanhado pelo presidente do PS, Carlos César, pelo líder parlamentar, Ferro Rodrigues, e pelo dirigente socialista Porfírio Silva, António Costa deixou um sinal de abertura ao diálogo com o Bloco de Esquerda, recusando o conceito de «arco da governação» - um conceito «que muita gente utiliza e que até o Presidente da República utiliza».

«O PS recusa o conceito de arco da governação, como se, por direito divino, só três partidos tivessem direito a ser partidos de Governo e que os portugueses estavam impedidos de escolher quem os governa. Em democracia todos os partidos têm a mesma legitimidade democrática, todos os partidos contam e os portugueses é que decidem como se formam as maiorias. O PS deseja ter maioria, mas fala com todas as forças políticas», declarou o líder socialista.

Interrogado se há alguma base viável para haver uma convergência com o Bloco de Esquerda após as eleições, António Costa respondeu: «É sabido que entre o PS e o Bloco de Esquerda há pontos de vista muito diversos, mas também há matérias sobre as quais houve convergências».

«O futuro dirá como é que as coisas se passarão. O PS não exclui ninguém do debate político, do diálogo e da participação nas soluções dos problemas do país», frisou.

Logo a seguir, a porta-voz da direção do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, disse que a sua força política concorda com a ideia referente à necessidade de o país mudar, «mas regista que no PS há indefinição sobre temas centrais».

Tendo ao seu lado o líder parlamentar do Bloco de Esquerda Pedro Filipe Soares, bem como os dirigentes Joana Mortágua e Pedro Soares, Catarina Martins deixou várias críticas à atuação concreta do PS, nomeadamente «à indefinição» sobre a política de rendimentos dos trabalhadores e pensionistas, sobre o futuro da TAP, ou os alinhamentos em matéria europeia (Tratado Orçamental e restruturação da dívida).

«Sem um alinhamento diferente, sem mudar o que conta, não será possível mudar a política em Portugal. Se o PS não se definiu até agora, é porque não se quer definir», disse.

Catarina Martins advertiu depois que «os silêncios têm custos» e advogou que, ao longo de mais de três décadas, esses silêncios sobre compromissos «significaram que governos após as eleições aumentaram impostos, cortaram salários e privatizaram mais».

«Por isso, os silêncios preocupam-nos. Em Portugal, após quatro anos de austeridade, com tanta destruição, não podemos entrar num ano de eleições com cheques em branco. São precisos compromissos claros», reforçou a porta-voz do Bloco de Esquerda.