Meia hora antes do almoço-comício do Partido Socialista em Setúbal, na praça Machado dos Santos, já cheirava a peixe grelhado. Os discursos antes da refeição foram servidos em dose tripla na dramatização do “ajuste de contas” com os quatro anos de Governo PSD/CDS-PP, da necessidade do voto útil no PS e, pela primeira vez, numa resposta disfarçada de desabafo contra os ataques dos partidos mais à esquerda do PS.  

"Permitam-me que faça um desabafo”, começou Costa, defendendo que a esquerda devia estar unida contra a direita e que CDU e Bloco de Esquerda não deviam estar a  perder o seu tempo e energia com o PS. 

"Não nos enganamos sobre quem são os nossos adversários: são a coligação de direita, são Paulo Portas e são Passos Coelho. É por isso que não desperdiçamos a nossa energia, como outros, neste combate, nem a atacar, nem a responder aos ataques de outras forças políticas".


Costa assumiu ainda que o seu partido está isolado no combate cerrado para derrotar a coligação:  "Com toda a franqueza: estamos sozinhos contra a direita unida a disputar palmo a palmo estas eleições". Seguiu-se o apelo em tom irónico de ataque aos partidos mais à esquerda:

"O mínimo que se pede a essas forças políticas é que concentrem ataque na direita e não desperdicem tempo com PS. Podem voltar como gostam para as manifestações, para a rua, tudo aquilo que já sabemos que vai acontecer no dia a seguir às eleições, mas para já, para já o que está em causa é Passos Coelho e Paulo Portas irem para a rua".


Daí um novo e reforçado apelo ao voto "útil". O líder do PS disse que a única forma de derrubar o Governo é votar no seu partido, "o campeão do pluralismo". 

O ex-ministro socialista Jorge Coelho já tinha entrado a todo o gás, nesse campo, Para além de dizer que é preciso "ir até ao fim da rua" explicar às pessoas o que está em causa nestas eleições, defendeu que “não há muito por onde escolher”:

“Mesmo [os eleitores] que entendam que estão mais virados para outras forças, o que pode acontecer é segunda de manhã quando se dirigirem vão ter o mesmo governo nos próximos quatro anos e que voto não serviu para grande coisa. Desta vez, isto tem de ser a sério e a valer".


Ou seja, "tem de haver uma concentração de votos à volta do PS porque é a única possibilidade de mudar a política” e que tem, “entre as muitas e boas caracteristicas uma extraordinária: é que não mente”.


"Não somos PAF's!"


Essa foi, de resto, a frase que marcou o discurso de Jorge Coelho. O nome da coligação Portugal à Frente, para o ex-ministro socialista, é apenas e só uma tentativa de “fazer esquecer” que foram PSD e CDS-PP que conduziram as políticas de austeridade: “Tiraram as suas fotografias dos cartazes, não apresentam programa nenhum, é como se fosse outra coisa. Como se estivesse tudo isto a zero e estivéssemos a apresentar as propostas de cada um. Os portugueses têm memória. Agora querem que sejamos PAF? (...)  Não sejam parvos. Não se deixem enganar de novo", pediu. 

A quatro dias das eleições, chegou a hora do tudo ou nada. Viu-se pelo discurso do Coelho socialista em que afirmou que esta é “a hora do ajuste de contas” e que o que está em causa é um “combate gigantesco e necessário” pela “dignidade” das pessoas. Foi depois acompanhado por António Costa: “O que é difícil não é ganhar a primeira eleição. É vir quatro anos depois dar a cara”.

"Ainda hoje foram apanhados mais uma vez num truque quer fizeram para mascarar contas de 2012", afirmou o candidato a primeiro-ministro, aludindo à notícia avançada pela Antena 1 sobre a alegada ocultação de prejuízos decorrentes do ex-BPN, que a tutela veio depois negar. Costa sugeriu que existirão "outros truques" que "fizeram para enganar contas de 2012, 2013, 2014 e 2015 e por aí fora".

"É dramático para a credibilidade da vida politica e da democracia quando permanentemente um governo não há semana que passe que não seja apanhado. Os cidadãos mereciam respeito e não esta desconsideração".

António Costa também reforçou que é preciso "lutar até ao último minuto". E pediu uma "vitória do PS com maioria absoluta, sublinhando que é por esse objetivo que se bate. “É o único resultado que permite com tranquilidade e segurança derrotar o governo”.