Fazer balanços antes da emblemática descida do Chiado para o Partido Socialista pode pecar por defeito. Ainda assim, 14 dias de campanha eleitoral são quase três mãos cheias de histórias. Faltou a quarta mão, a da confiança clara de que será possível cumprimentar os eleitores indecisos e combater a abstenção.

Ontem mesmo, António Costa admitiu que ainda há "muitos" que não sabem em que quadradinho vão pôr a cruz. Hoje, a partir da meia-noite, é tempo de reflexão. Na semana do tudo ou nada, neste último dia de campanha "ou vai ou racha", como diz o povo. 

Nas ruas, o líder socialista e a sua caravana conseguiram atrair sobretudo os mais velhos. Reformados e pensionistas zangados com os cortes da "dupla Passos & Portas", como António Costa tantas vezes os apelidou. Para além, claro, de não mencionar uma única vez o nome "PAF". Quis desconstruir o slogan dos adversários e dar-lhe uma cara. Com uma única variante discursiva: "coligação de direita". 

Fora a Juventude Socialista - umas três dezenas de rapazes e raparigas que puxaram pelas arruadas com uma garra cada vez mais rouca, mas fiel; e que prontamente abafavam com as vivas ao PS as situações potencialmente desagradáveis - a nova geração pouco aderiu. Muito pouco. 

O exemplo mais presente: Praça da Batalha. Porto. Quando a arruada socialista arrancou, depois da troca de olhares tensa com a PAF que seguiu primeiro por ali abaixo, uma banda móvel instalou-se ali para comemorar o Dia Mundial da Música. A plateia? Jovens, totalmente indiferentes ao ajuntamento socialsta.
 

Três fantasmas 


Quem marcou presença quase diária na campanha foram as sondagens, a herança de José Sócrares e, ainda, António José Seguro. Seja nos discursos, seja nas conversas entre militantes nas ruas, fora da "bolha" que envolvia o secretário-geral. 

E dentro dela. António Costa foi confrontado com a frase "o seu partido devia estar todo na prisão", logo no dia 19 de setembro, em Alvalade. Na Trofa, uma mulher gritou a alto e bom som que ele traiu Seguro para ter um "tacho": "O outro é que deu a cara e este é que vai comer". 

Depois, o esforço de descolar das sondagens, que praticamente sempre deram avanços confortáveis à coligação. Costa foi repetindo que fazia a sua própria e "gigantesca" nas ruas. E que saía das arruadas com a certeza de que uma "esmagadora maioria" das pessoas quer correr com o atual Governo. 
 

O que faltou?


A perceção de quem já fez outras campanhas - e mesmo entre apoiantes - é que esteve menos gente nas ruas e que a mobilização não foi muito eficaz. Castelo Branco, Fafe, Guimarães, Barcelos e Lisboa deverão ter sido os melhores momentos de "contactos com a população", como vêm descritos na agenda do PS. 

O Porto podia ter sido, mas não foi épico. Os jornalistas que faziam a cobertura da campanha do PS deram uma espreitadela à arruada da PAF e a comparação foi inevitável. Pode questionar-se se o que se vê nas ruas é resultado sobremaneira da mobilização da máquina partidária. De qualquer modo, campanha é campanha e, nas circunstâncias atuais, o clima seria sempre de desforra entre as duas barricadas. 

Faltou também - e isso é admitido dentro do próprio partido - conseguir contornar a mensagem mais eficaz que foi sendo passada pela coligação: de que as coisas estão melhor do que há quatro anos. Já o discurso do "medo" que as grandes figuras socialistas acusaram Passos e Portas de estarem a alimentar, só na hora decisiva do voto é que se verá se teve influência. A sondagem à boca das ruas, numa esquina aqui ou numa porta de loja acolá, permite aferir que há algum receio de trocar o certo - embora poucochinho - pelo incerto.


Dramatização da confiança e do voto útil


Ora, uma das palavras que António Costa mais repetiu foi mesmo "confiança", que de resto dá nome à sua caravana. Para abrir o tal "horizonte de esperança" que apregoou. Para que as pessoas não tenham, precisamente, medo de mudar. 

Ergueu algumas vezes o programa eleitoral impresso, argumentou com as "contas feitas" e "sérias". E garantiu que só prometeu aquilo que pode vir a cumprir. Que está "escrito" naquela pastinha e que os eleitores podem exigir escrutínio daqui a quatro anos.

António Arnaut até chegou a pôr as mãos no fogo por Costa. Manuel Alegre discursou duas vezes a atacar a coligação, as esquerdas que estão a perder tempo a considerar o PS o inimigo principal e a glorificar a história conciliatória do partido. Vieira da Silva e António Vitorino também subiram ao púlpito. E uma mão cheia de seguristas. Tozé é que não. Foi convidado para a descida do Chiado. Ainda não respondeu.


Entre o futuro e muito passado


António Costa fez sempre a ponte para o futuro nos discursos, citando alguns dos compromissos espelhados no seu programa. Dirigiu-se sobretudo aos pensionistas. São eles o grosso do eleitorado.

E insistiu na dramatização do voto útil. Apelos atrás de apelos para que todos, "amigos, familiares, vizinhos, colegas", convençam as pessoas a votar no PS para derrotar a direita e haver condições de governabilidade. A questão "central" destas eleições, reconheceu.

Só à entrada da segunda semana de campanha é que pediu a maioria absoluta, para acabar com as "variantes nos adjetivos" que vinha utilizando: clara, inequívoca, uma grande vitória. Foi pedindo, mas não em crescendo. 

Ontem à noite, já só falou em "maioria parlamentar", abrindo a porta a "estender a mão" politicamente. O mais provável, se ganhar, é que privilegie um governo de geometria variável, com acordos pontuais à esquerda e à direita. Tal como fez na câmara de Lisboa, percurso que recordou inúmeras vezes para mostrar que tem currículo e provas dadas.  

Mas foram as sondagens e a troca de acusações com a PAF que moldaram a campanha. E até entre as esquerdas sentiu-se clima de guerra fria. Falou-se muito do passado e da austeridade para além da troika, precisamente para convencer os indecisos e a classe média a romperem com esse sufoco. 

 

Os imponderáveis


Pelo meio, as histórias de campanha cheias de gaffes e episódios de descompressão. Desde o "vão ir às urnas" de António Costa até ao rapaz que apareceu com um cartaz a pedir que sejam os políticos a limpar as florestas ou ao homem que apareceu num comício com um coelho vivo nas mãos. 

Mas o episódio porventura mais engraçado da campanha - pelo menos para os jornalistas - embora muito sério no seu propósito foi mesmo em Vila do Conde, num jantar.comício, com um discurso a ser interrompido: 

"Aconteceu aqui um imponderável. Duas pessoas perderam os telemóveis e as carteiras. Vamos telefonar para ouvir onde estão. Silêncio absoluto. A mala é verde escura a fugir para o cinzento...."

Ataque de riso inevitável entre os camaradas jornalistas. Pelo andar da carruagem,  a cor da mala ainda poderá vir a ser uma metáfora para os resultados eleitorais.