No primeiro debate quinzenal que teve António Costa como primeiro-ministro, o agora líder da oposição Pedro Passos Coelho deixou avisos ao novo Executivo quanto à estagnação da economia que pode advir da reposição de rendimentos, ao mesmo tempo que saudou a "decisão" do Governo socialista em cumprir a meta de atingir um défice abaixo dos 3%.

O presidente do PSD avisou António Costa que o "investimento externo" e as "exportações" devem ser a prioridade do Governo, lembrando o caso da Irlanda, que viu nestas duas apostas o segredo para a recuperação da economia.  
 

“Precisamos de investimento externo e exportações, esse foi um dos segredos da forte recuperação da Irlanda. Mas sr. primeiro-ministro é muito difícil incutir confiança aos agentes económicos quando os verbos que a maioria que apoia agora o governo mais gosta de conjugar são: repor, reverter, revogar e eliminar. Ainda não ouvimos outras medidas positivas."


"Quando tudo isto acontece, qual é a consequência, senhor primeiro-ministro? É aquela que já é visível. A Maersk, uma das empresas de logística com mais relevância em todo o mundo, já anunciou que vai sair de Portugal e com isso pode, como já foi reconhecido pelo senhor ministro, criar aqui um grave problema para Portugal e para as empresas portuguesas", acrescentou.

Passos Coelho fez questão de salientar que ficou satisfeito por saber que o Governo de António Costa pretende manter a meta do défice abaixo dos 3%, de forma a retirar Portugal do procedimento por défices excessivos. O ex-primeiro-ministro lembrou, no entanto, que a recuperação de rendimentos já estava em curso nos últimos anos do seu Governo, e avisa António Costa para não entrar em excessos que ponham em causa a meta do défice. 

“A recuperação dos rendimentos já está em curso e já está pelo menos desde 2015, alguns casos desde 2014. A economia já tem vindo a crescer, pelo menos em terreno positivo desde 2014, embora em 2013, nos dois últimos dois trimestres tenha já atingido algum terreno positivo."


O líder do PSD questionou, ainda, António Costa sobre o défice do próximo ano, tendo em conta os possíveis aumentos da despesa. Na resposta, António Costa garantiu que este Governo vai fazer "tudo" para conseguir cumprir o objetivo do défice para 2015, e confirmou que para o próximo ano o Executivo espera mantê-lo nos 2,8%.

"Eu ouvi um excesso de vezes as bancadas do PSD e do CDS que o Governo tudo faria para que o défice não fosse alcançado. O esforço que o Governo fará para cumprir demonstra que apesar do Governo anterior ter falhado a meta orçamental que se tinha proposto, nós tudo faremos para cumprir a meta orçamental que nos propusemos. (...) Pode estar tranquilo, o que nos separa não é o objetivo de ter finanças públicas sérias. (...) Não há ninguém nesta Câmara que defenda que Portugal não deva cumprir esse objetivo. (…) É um objetivo de interesse nacional. A última vez [que aconteceu] foi em 2007, e recordo-me bem por ter sido o último ano que estive no Governo”, disse António Costa.

Costa rejeita os conselhos de Passos Coelho e em resposta às críticas aos partidos que apoiam o Governo, o primeiro-ministro fez questão de corresponder a cada um dos verbos enunciados pelo presidente do PSD, uma medida que contraria as políticas do Executivo anterior.

"Vamos repor rendimentos, vamos reverter a asfixia fiscal sobre a classe média e vamos revogar os cortes nas pensões e nos salários dos funcionários públicos e assim teremos um caminho mais sólido para a economia portuguesa."

O primeiro-ministro discordou que a política de reposição de rendimentos não deva ser uma prioridade clara do Governo, considerando que "crescimento e maior igualdade" não devem ser objetivos "contraditórios", mas sim que se complementam.
 

“A competitividade da nossa economia não se construirá com base nos baixos salários, construir-se-á no investimento e inovação, no combate à burocracia e na criação de um contexto favorável à modernização do nosso sistema empresarial. Será assim que seremos mais competitivos. (...) O objetivo de mais crescimento e maior igualdade não são objetivos contraditórios entre si, são objetivos que se complementam e que se apoiam reciprocamente. Não haverá melhor emprego e maior igualdade sem maior crescimento, mas garanto-lhe uma coisa, e a sua governação foi a melhor prova: não há crescimento sem melhor emprego e sem maior igualdade."