O Governo de Passos Coelho já caiu.  E António Costa ainda não é primeiro-ministro, mas avisou já Bloco de Esquerda, Partido Comunista e Os Verdes - partidos com quem assinou acordos políticos para a legislatura - que se algum dia pretenderem avançar com uma moção de censura ao seu Governo PS, é "divórcio" na certa. 

"No dia em que qualquer um deles sentir a necessidade de apresentar moções de censura, é no mesmo dia em que qualquer um de nós mete os papéis de divórcio. Nesse dia o casamento acabou, nesse dia o Governo acabou"


À saída do hemiciclo, onde decorreu o debate do programa do Governo e consequente rejeição com a aprovação da moção do PS, o secretário-geral socialista ressalvou, contudo, que o que interessa são as "condições de partida" deste acordo político à esquerda e a "base credível" que ele tem.

Sobre esses cenários futuros, "terão de ser os outros partidos a falar", respondeu aos jornalistas, pese embora tenha usado aquela imagem matrimonial para se referir ao que está em causa para os próximos quatro anos.

É que os três acordos que assinou não excluem a possibilidade de BE, PCP e PEV, se assim o entenderem, avançarem com moções de censura ao PS, que liderará o Executivo.   

Só há uma cláusula, isso sim, sobre ser "inequívoco" que serão "rejeitadas" as moções de censura apresentadas pelo PSD e pelo CDS ao futuro Governo liderado por Costa. 
 

Assembleia teve "a última palavra"


O líder do PS disse que se sente "muito tranquilo" e que, nesta fase, o que há a fazer é aguardar "serenamente" a decisão do Presidente da República. O processo volta agora a Belém. À estaca zero. 

No único discurso que proferiu no debate do programa do XX Governo Constitucional, António Costa enviou, de resto, alguns recados a Cavaco Silva, alegando que o acordo à esquerda "não é para a fotografia”.

E, já lá fora, continuou: "A Assembleia da República pronunciou-se. Como disse o senhor Presidente da República, a última palavra cabe à AR.  Creio que é clara a vontade expressa".

Por isso, vai aguardar "serenamente" posição de Cavaco Silva. 
 

Não há "cheques em branco"


Defendendo com unhas e dentes o acordo que conseguiu alcançar à esquerda, António Costa ressalvou porém que não é um "cheque em branco". Sublinhou a "responsabilidade" que cada partido teve para se alcançarem "posições conjuntas", como na verdade são designados os acordos.

"Foram criadas condições para formação de Governo, viabilização de programa de Governo e viabilização do Orçamento de 2016. E serão seguidas na legislatura".  

Lembrou que "os acordos são públicos" e que "todos" podem lê-los e conhecê-los.


Relação com Passos e Portas


Assim que António Costa acabou de discursar, o Governo abandonou o hemiciclo. Não sem antes Passos, Portas e Maria Luís receberem um aperto de mão do líder do PS, que foi junto a eles para prestar esse cumprimento.

Lá fora, António Costa quis "manifestar respeito e consideração" por Passos Coelho e às perguntas dos jornalistas disse que "seria impróprio prosseguir agora, depois deste resultado, o debate que se manteve ao longo destes dias", recusando continuar a bater na mesma tecla das críticas.

"O que quero desejar é poder manter com ele as melhores relações de cordialidade democrática"

Passos passa agora à oposição, e avisou que está cá para "lutar", ao mesmo tempo que não poupou críticas a Costa e ao seu "apetite" pelo poder. Portas também: "Esta vossa manobra não é bem um Governo, é uma geringonça".

Ora, quanto ao líder do CDS-PP, Costa diz que ele às vezes "diz algumas coisas mais com a emoção do que com a razão": "Tenho a certeza que aquela ameaça de oposição de obstrução permanente que foi aqui pronunciada foi fruto da emoção".