O secretário-geral do PS, António Costa, disse esta sábado que o Governo conduziu o processo de privatização da TAP com um “suspeitíssimo secretismo”, escondendo da opinião pública “dados essenciais”, mas afirmou-se tranquilizado por Bruxelas ainda ir avaliar o negócio.

“Verdadeiramente, ninguém sabe como é que estão formados os consórcios, qual é a sua base, e o Governo tem procurado esconder da opinião pública dados essenciais para avaliação desse negócio. Eu não faço juízos de intenções, e tenho que presumir obviamente que o Governo de Portugal aja de acordo com a legalidade, mas dá-me tranquilidade que a Comissão Europeia diga que vai investigar bem e que vai verificar se foram ou não foram cumpridas as regras”, disse, em Budapeste, à margem de um congresso dos Socialistas Europeus.

Em declarações a jornalistas, António Costa acusou ainda o Governo de não só não ter procurado um acordo com o PS, como ter usado a TAP como “um fator de confrontação”, e considerou “escandaloso que a TAP tenha sido vendida por um valor inferior às das contratações dos mercados de futebol”.

"O Governo pode-se queixar de tudo; agora, não se pode queixar nem que o PS não tenha procurado ter uma posição construtiva, nem que o PS tenha recusado qualquer acordo. A única coisa que podemos constatar é que o Governo não só não fez o menor esforço para haver um acordo, como eu, pessoalmente, estou convencido que quis mesmo que a TAP fosse um fator de confrontação. Bom, se o quis, provavelmente será um fator de confrontação. Mas é mau para o país que assim seja, porque a TAP não é uma companhia qualquer", cita a Lusa.

Reiterando que considera, “no mínimo, lamentável que este Governo tenha definido como prioridade deste termo de mandato a privatização a todo o vapor de um conjunto de setores estratégicos que receavam que não pudessem ser privatizados após as eleições”, António Costa rejeitou também qualquer "incoerência" do PS nesta matéria.

Depois de, na sexta-feira, o vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, ter recomendado “alguma coerência” aos socialistas, recordando que o PS defendeu a privatização da TAP quando era Governo, incluindo-a mesmo no memorando com a ‘troika’, António Costa argumentou hoje que não se pode comparar diferentes contextos.

“Nós não podemos comparar o quadro de há 20 anos atrás com a situação hoje, nem sequer é possível evocar aquilo que constava do memorando de entendimento”, disse, apontando que o memorando “previa um conjunto de privatizações” com objetivo de se alcançar quatro mil milhões de receitas com privatizações, e, “sem vender a TAP”, o Estado já arrecadou “mais que o dobro” desse montante.

Criticando ainda o valor pelo qual a companhia aérea foi vendida, abaixo de transferências no futebol - em nova alusão dos socialistas ao facto de o preço pago pelo consórcio Gateway ser inferior ao que o Sporting paga pelo antigo treinador do Benfica, Jorge Jesus -, António Costa considerou que tal se deveu em grande medida à atuação do Governo.

“Ao longo de meses, em vez de procurar valorizar a TAP, puxar pelo valor da TAP, andou a multiplicar-se a desvalorizar o seu valor”, com o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, o vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, e o ministro da Economia, António Pires de Lima, “todos os dias quase a dizer que até pagavam para alguém ficar com a TAP”, vincou.

“Ora, como podiam vender decentemente a TAP se o próprio vendedor se esforça por dizer que não vale nada?”, questionou.


O secretário-geral do PS insistiu que o partido “não ignora a delicadíssima situação financeira em que a TAP está”, mas reafirmou a defesa de privatização parcial (de 49%) da empresa, até porque “isso permitia cumprir as regras comunitárias”, e o PS considera “que é do interesse nacional que pelo menos 51% do capital fique na esfera pública”.