O secretário-geral do PS defendeu esta quarta-feira que «o caso» da carreira contributiva de Passos Coelho perante a Segurança Social está entregue aos portugueses nas eleições, considerando que o primeiro-ministro revelou-se indulgente consigo, mas intransigente com os cidadãos

Esta posição foi assumida em entrevista à RTP, na sede do PS, que foi conduzida pela jornalista Fátima Campos Ferreira.

Esta quarta-feira, no debate quinzenal, Passos Coelho lamentou «profundamente» a dívida, mas rejeitou o cenário de se demitir do cargo. 


Questionado sobre as explicações dadas até agora pelo primeiro-ministro, o líder socialista começou por prevenir que detesta «a política de casos» e justificou porque razão o PS não pede a demissão do primeiro-ministro.

Costa disse então que a demissão do Governo poderia acontecer por «ato de consciência do primeiro-ministro, entendendo que perante circunstâncias destas que não estava em condições de prosseguir a sua função».

«Mas, quanto à avaliação feita pelo primeiro-ministro, estamos entendidos em relação à indulgência que ele tem sobre si próprio, bastante distinta da intransigência que tem no tratamento dos portugueses.»


As outras vias para a demissão do Governo, segundo Costa, passavam pela via da maioria PSD/CDS ou por decisão do Presidente da República.

«A maioria PSD/CDS dá total cobertura a este Governo e o senhor Presidente da República entende que está tudo bem e que assim se deve manter.»

Cavaco Silva voltou a insistir esta quarta-feira que o caso é uma questão «político-partidária».

Mas para o líder socialista, o caso de Pedro Passos Coelho com a Segurança Social é daqueles em que «os juízos dos políticos acrescentam pouco».

«Acho que o caso está bem entregue, está entregue nas mãos dos portugueses. Tenho a convicção profunda que os portugueses perceberam tudo o que se passou e agirão em conformidade.»

 


Programa de Governo será apresentado a 6 de junho

O secretário-geral do PS anunciou ainda que apresentará o programa de Governo a 6 de junho e o cenário macroeconómico de base já no final deste mês, defendendo uma redução do défice ajustada aos ciclos económicos.
 

«Ninguém irá votar sem saber os compromissos que o PS assume. Ao contrário da vontade da maioria dos portugueses, que anseiam que haja rapidamente um novo Governo, o Presidente da República decidiu que as eleições serão entre finais de setembro e princípios de outubro. No dia 06 de junho apresentaremos o nosso programa de Governo.»


Um programa de Governo que terá como base um cenário macroeconómico, que António Costa disse que será apresentado até ao final deste mês.

«Estará completamente definido qual o quadro financeiro de sustentabilidade desse programa de Governo. Este é o caminho certo e a pior coisa que podíamos estar a fazer era pôr o carro à frente dos bois, fazer promessas sem ter a certeza de as poder cumprir e fazer o favor ao Governo de pôr já em discussão o programa do PS.»


Ao longo da entrevista, António Costa criticou a política de austeridade seguida em Portugal e na Europa, chegando mesmo a dar uma imagem dramática sobre o futuro do continente, sobretudo em termos de consequências políticas, caso a atual linha económica e financeira se conserve a médio prazo.

«A Europa está a matar-se com esta política de austeridade, favorecendo o crescimento dos extremismos», advertiu, antes de dizer qual a «atual vantagem» dos socialistas portugueses na presente conjuntura face a outros partidos europeus da mesma família política.

«O PS fez bem em não se disponibilizar a ser bengala destas políticas. Há gente que faz sistematicamente apelos aos consensos, mas os compromissos têm de ser feitos em nome de valores», contrapôs, numa referência indireta ao chefe de Estado, Cavaco Silva.

Ao longo da entrevista, António Costa foi confrontado por várias vezes sobre os meios que um futuro Governo socialista poderá dispor para cumprir o seu programa de fim da austeridade, designadamente através da promoção do investimento e da reposição dos cortes antes feitos nos salários dos trabalhadores do setor público.

«Temos de ajustar a redução do nosso défice às necessidades dos investimentos que temos de fazer no futuro - investimentos que permitam sustentar o futuro da nossa economia. E temos de ajustar a redução do défice ao próprio ciclo económico. Ou seja, quando crescermos bem podemos poupar mais, mas agora necessitamos de investir mais para podermos crescer.»


Costa defendeu mesmo que uma mudança de orientação económica e financeira nesse sentido «está em curso» na União Europeia, apesar de o Governo português atuar ao contrário.

Na entrevista, o secretário-geral do PS defendeu um amplo programa de reabilitação urbana, capaz de dinamizar o setor da construção civil e a fileira industrial deste setor, assim como uma redução do IVA da restauração para a taxa intermédia de 13 por cento - medida esta que classificou como essencial para combater o desemprego de longa duração.

O secretário-geral do PS criticou ainda o Governo por não usar verbas disponíveis no programa europeu «Garantia Jovem», lamentou os «atrasos»  na criação de um banco de fomento e considerou urgente a adoção de um programa de recapitalização das empresas.