Trofa, uma feira, nevoeiro, um sábado de manhã e a caravana socialista. O pregão do feirante: “Campanha de baixos preços, aproveite a almofada”. O que preocupa o povo não são os descontos, mas as multiplicações dos cortes nas pensões e o aumento da idade da reforma, o desemprego e a falta de oportunidades para os jovens. A gente do Porto não tem papas na língua, já se sabe. Para elogiar e para dizer mal.

“Tudo igual, tudo igual, tudo quer tacho. Deixassem lá estar o Seguro. Ganhava com maioria; Seguro, Seguro, Seguro! Não gostei do que ele fez ao Seguro. O outro é que deu a cara e ele é que vai comer”

  

A mulher que gesticulava interpelou António Costa, que sorriu, mas não respondeu. Uma apoiante saiu em sua defesa e foi ter com a outra socialista zangada: “Se é do PS não parece. PS é só um”. Levou resposta pronta: “Era o Seguro e mais nenhum”.
 

"Tenho de trabalhar até bengala até aos 66?"

 

Entre abraços e beijinhos, nos corredores da feira e mercado a céu aberto, Costa foi ouvindo pedidos. “Dê emprego a toda a gente pá, estou há cinco anos parado”. “Aperte com eles, aperte com eles”. Costa aproveitou para sucessivos apelos ao voto nas conversas: “Eu não me esqueço, é preciso que todos vão votar, muito bem, sim senhora”.
  Demorou-se em mais explicações com uma mulher de 55 anos, que diz que trabalha desde os 14 e queria ir para a reforma dando oportunidades aos mais jovens. “Tenho de trabalhar até bengala até aos 66?”, perguntava a apoiante.

Costa lembrou que tem previsto no seu programa o contrato-geração, para permitir o trabalho a tempo parcial. A mulher ouviu, mas avisou: “Estou à espera da sua atitude e fica a saber”. “Não precisa de ficar à espera da atitude, está escrito”, replicou o candidato a primeiro-ministro.

Houve quem ficasse de sorriso aberto por conhecer o líder do PS pessoalmente: “Estou sempre a vê-lo na  telebison e agora está aqui. Vai ganhar”. Com um sotaque cheio de orgulho.

Fácil de imaginar como Costa, a sua comitiva, os jornalistas e as dezenas de apoiantes deram ainda mais corda à já habitual azáfama de sábado de manhã numa feira. 

Alguns comerciantes não acharam piada: “Estão a estragar o negócio. Podiam vir para aqui comprar um parzinho de sapatos, só vêm ver se apanham votos… mas não é o meu. Só vêm à feira quando há eleições”.
 

Finta de Pinta, “fina e grossa”


Segunda arruada de um dia com espaço para quatro que ainda estão na agenda. Caxinas. Pescadores, peixeiras. Gente genuína.

À chegada, a TVI24 encontrou dona Fina de Pinta, 60 anos ,“fina e grossa”, como se autocaracterizou, a esbracejar.

Queixava-se do prédio de habitação que está a quase terminado, ali junto ao mar, a tapar a igreja. Obra da câmara que é socialista. “Abafaram a igreja. Foi uma vergonha. Viva o quê, viva o quê? Eu não, não sou, sou do PSD. Para ele mudar aquilo que está ali”.

 
Foi precisamente ali, em Caxinas, já o nevoeiro baixava, que António Costa raiou com o pedido de maioria absoluta, em frente às câmaras e no meio das pessoas. 

Próxima paragem: Ermesinde. E, à semelhança da arruada anterior, gritou-se “Todos ao Porto!”. A manhã acabou com mais povo e um cheiro delicioso a pastelaria. 

Nem de propósito, uma regueifa gigante para Costa, personalizada. “Bonita, boa e gostosa”, disseram, na oferta em cima do palanque. O candidato, que quis terminar com as variantes dos adjetivos pedindo tão só a maioria absoluta, acrescentou-lhe outro um “bela” à regueifa, no agradecimento.

Os bombos e os cabeçudos do centro de Ermesinde animavam a população, mas também houve quem encontrasse em António Costa o refúgio de mais uma súplica e chorasse sobre o corte nas pensões. Ou quem se mostrasse desiludido com os portugueses. Mais uma vez com o discurso na ponta da língua.