Dia de jogo Vitória de Guimarães – Braga. Gente em força nas ruas do Minho.  Mas este é um artigo sobre política. A coligação Portugal à Frente e o PS escolheram precisamente o distrito nortenho para se golearem mutuamente. Sem se cruzarem. Passos Coelho disse que não tem o rei na barriga. Ora, foi precisamente na rua que se chama Rainha que António Costa foi levado em ombros, pela primeira vez e efusivamente nesta campanha, em pleno centro de Guimarães, onde horas antes tinha estado a coligação Portugal à Frente. E de novo na Rua Direita, em Barcelos. Coincidências. Não propriamente fair-play. 

O líder socialista já vinha de sorriso aberto da arruada de Fafe, para muitos um barómetro das eleições. Cada vez que se ouvia falar em Passos ou em Portas, soltavam-se os insultos: "Bandido! Ladrão!". 
 
Mas foi na cidade-berço que encontrou ainda mais povo. De todas as idades. Uns para darem força ao líder, outros sobretudo com o coração a bater pelo PS. Independentemente de quem os representa. Caso da dona Deolinda de Silva Garcia. 82 anos, uma bengala e quase sem voz, a gritar pelo seu partido.
 
Ou Zeca Paulo, fervoroso apoiante, com uma loja de velharias e um grande apelo ao voto na porta. 
 
Nova arruada e comício cheio em Barcelos, ao final da tarde. Muitas bandeiras ao alto. Ouvia-se entre as gentes da terra que ficavam mais para trás que estava ali "um mar de gente". "Ele nem se vê", diziam.  Costa também se congratulou:

“Que grande resposta ao longo deste dia. De Braga a Fafe, de Guimarães a Barcelos, o povo português deu para dizer muito claramente o que quer no próximo domingo, a derrota da coligação de direita a e a vitória do PS”.



O sino da igreja do Largo da Fonte Nova tocou estava ele precisamente a fazer a contagem decrescente para 4 de outubro. “Estamos a uma semana…”. Aproveitou: "... de o sino tocar e ao dar as badaladas das 7 horas e fechar as urnas e dar uma grande vitória do PS no próximo domingo". 


Rumo ao título?


O relógio está a contar. E uma mão cheia de vezes em que António Costa começou a falar em maioria absoluta nos últimos dois dias. Hoje, foi quando o disse com mais convicção. Erguido pela multidão, por vezes pisado por ela, estava de sorriso rasgado.

Certo é que só depois da "maioria de confiança" e dos adjetivos habituais, aí sim, as expectativas mais no alto, sempre a lembrar o histórico dos últimos quatro anos e a " pieguice" do Executivo de Passos Coelho. 
 
“O Governo não tem memória, mas os portugueses vão-lhe apresentar a conta dos últimos quatro anos. O PS é o partido do diálogo político alargado. É por isso que o Partido Socialista é o partido em condições de assegurar uma maioria de confiança e, sendo uma maioria absoluta, assegure governabilidade". 

Durante o dia até vinha piscando mais à esquerda do que à direita - ruas à parte.  Bem como aos indecisos. Mas em Guimarães contou com um apoio do histórico fundador do CDS Freitas do Amaral, encostado numa rua, à sua espera:
“O único grande problema que nós temos é falta de justiça social. E não noto uma grande preocupação do Governo a não ser um muito décimo lugar. Encontro-a em primeiro lugar no programa do PS. Não sou nem militante nem dirigente do PS, sou um ex-CDS que vai votar no PS”.
 
O líder do PS recordou o “abraço caloroso” no comício. "Nunca foi nosso militante e teve muitos combates políticos connosco", mas vai votar PS.

Desse exemplo para novo apelo ao voto foi um pulo. "Muitos daqueles que uma vez, ou outra, ou sempre, tiveram outros percursos políticos, uns à nossa esquerda, outros à nossa direita, mas que perceberam que pela direita radical que temos em frente (…) é preciso concentrar e mobilizar em torno do PS uma maioria que permita governar”.

O povo anuiu. Muitos ainda com a memória da ditadura presente, como a dona Deolinda de Guimarães. Barcelos não foi exceção. Houve quem tivesse tentado colar a austeridade do Governo de Passos e Portas ao chamado tempo da outra senhora. 
 
Para este hoem, com o PS no governo a vida, pelo menos, foi "mais ou menos". 

Assis assina de cruz em Costa

Para além do democrata-cristão e um dia depois das recordações com a disputa contra Seguro terem ensombrado a sua passagem pela Trofa, António Costa contou com mais um apoiante do ex-líder do PS nas primárias. Francisco Assis marcou presença em Barcelos e teceu rasgados elogios ao atual secretário-geral:
"Não surgiu ontem na vida portuguesa, tem um longo percurso. Não conheço ninguém, mesmo entre os nossos adversários, que se atreva a dizer que desempenhou mal as suas funções: foi um bom deputado, excelente ministro, excecional presidente de câmara. Não se associa [a ele] uma só suspeita, um só caso, uma só interrogação acerca da sua dedicação ao interesse público". 

Assis admitiu o cenário de uma maioria sem a apoteose do adjetivo que confere o poder máximo possível no Parlamento. E falou do passado. Logo desferindo no ataque personalizado à coligação.

“Vêm agora dizer que é resultado de uma herança. Todos os governos têm heranças, coisas boas e coisas más. Até disseram que as imposições externas não eram suficientes e quiseram ir mais longe. São incapazes de assumir a responsabilidade. A culpa é sempre dos outros. (…) Independentemente de que tipo maioria for, o que está em causa é continuar com Passos e Portas a acolitá-lo, ou ter António Costa”, advertiu.

Frisou também que não o PS não anda “a vender banha da cobra” como a coligação e que “todos os votos em todos os partidos são úteis”. Mas há alguns que podem "concorrer mais fortemente". "E é por isso que faço aqui apelo aos indecisos: não tenham medo. Não tenham medo daqueles que vos querem por medo", insistiu.

Costa agradeceu ao “camarada” pela “amizade fraterna” e classificou-o como “um dos melhores” da sua geração. Assis, no entanto, terminou o discurso invocando algo que o PS se esforçou por fazer esquecer, embora com mais um elogio em troca:  "Podes não perceber muito de cartazes, mas vais ser um grande primeiro-ministro".

A ver se António Costa percebe a tática de jogo rumo à vitória. A onda da confiança hoje já se sentiu.

P.S. À hora de publicação deste artigo, a partida minhota de futebol ainda não terminou.