António Costa afirmou que, da sua parte, “não há crispação nenhuma” com o Presidente da República. Na primeira entrevista após os incêndios de 15 de outubro, no Jornal das 8 da TVI, este domingo, o primeiro-ministro garantiu que o Governo “está totalmente empenhado em manter” o “nível de cooperação” com Marcelo Rebelo de Sousa e que não lhe passa pela cabeça “que da parte do Presidente da República não exista essa ideia”. 

Da minha parte não há crispação nenhuma. (…) Estamos totalmente empenhados em manter esse nível de cooperação e não me passa pela cabeça que da parte do Presidente da República não exista essa ideia.”

Veja a entrevista de António Costa na íntegra

Nesta entrevista, conduzida por Pedro Pinto no quartel dos Bombeiros Voluntários de Pampilhosa da Serra, Costa foi várias vezes questionado sobre o atual momento que vive a relação institucional com o Presidente da República, apontado por muitos analistas como o mais crítico, na sequência do discurso muito duro de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os fogos.

O primeiro-ministro, contudo, recusou abrir o jogo, que é como quem diz, comentar esta crise, argumentando, por um lado, que não lhe compete comentar a atividade do Presidente e, por outro, que as conversas entre ambos têm de ficar na esfera da confidencialidade.

O primeiro-ministro não faz análise politica e, como já disse várias vezes, as minhas conversas com o Presidente da República, como aliás ele também tem dito, são conversas que são entre nós e que não são para serem tornadas públicas, nem agora nem num futuro livro de memórias. (…) Um dos bons contributos que o primeiro-ministro deve dar para um bom relacionamento institucional com o Presidente da República é não comentar a atividade do Presidente da República. Não me compete a mim fazer e não o irer fazer”.

Costa preferiu lembrar que, ao longo dos últimos dois anos, "o país tem apreciado a relação entre o primeiro-ministro e o Presidente da República". E sublinhou que Portugal "já tem um excesso de problemas para acrescentarmos problemas institucionais ao que já existe”. “Já chega o que há”, acrescentou.

Estabelecer qualquer ligação entre as declarações de Marcelo e o facto de o PSD se estar a preparar para uma nova liderança é para o primeiro-ministro “absolutamente impensável” e pura “ficção política.”

Seria absolutamente impensável estabelecer qualquer relaçao entre a açao do Presidente da República e o que se passa na vida interna do PSD. Respeito suficientemente o Presidente da República e o professor Marcelo Rebelo de Sousa para não me passar sequer pela cabeça tal hipótese”.

De resto, no capítulo da política propriamente dita, foram mais as não respostas do que as respostas concretas. Outra questão à qual também recusou aceder foi se teria insistido com a ex-ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, para se manter em funções caso o Presidente da República não tivesse sido tão duro com o Governo.

Não lhe vou responder a essa pergunta. Acho que a senhora Ministra da Administração Interna fez o trabalho que tinha combinado fazer, que era preparar as reformas e os documentos que foram aprovados no sábado seguinte, entendeu numa circunstância própria que não tinha mais condições para exercer as suas funções e em termos que eu não pude negar-lhe o direito de ser libertada do exercício das suas funções e assim foi.”

A tragédia dos incêndios abalou o país, mas António Costa nunca ponderou demitir-se. Pelo contrário, procurou, desde o início, responder a esta situação, garantiu.

Não, aquilo que desde o dia 17 de junho tem estado no centro das minha preocupações é precisamente responder a esta situação.”

 

"Houve uma subestimação dos riscos"

Nesta entrevista, o primeiro ministro começou por reconhecer que "houve uma subestimação dos riscos da primeira quinzena de outubro" e  que "houve uma subestimação do impacto do furacão Ophelia sobre o conjunto do território do continente" no fim de semana de 14 e 15 de outubro.

E houve seguramente carência de meios. Mas, ouvindo as populações, ouvindo os responsáveis pelos bombeiros, ouvindo os autarcas em cada um destes concelhos, também todos temos noção da excecionalidade do que aconteceu no dia 15 de outubro e, em particular, na noite de 15 para 16 de outubro", frisou.

O chefe do Governo salientou os fenómenos "de força dos ventos absolutamente devastadores" e referiu que "os meios aéreos que havia, a generalidade deles, não puderam operar, tal era a força dos ventos".

"Como muitos presidentes de câmara têm dito, todos os meios que existissem teriam sido manifestamente insuficientes", acrescentou.

Ainda assim, Costa admitiu que, em alguns casos, mais meios poderiam ter feito a diferença numa primeira fase de ataque.

 

Acredita que défice não vai derrapar, mas essa é a "última das preocupações"

O primeiro-ministro assegurou que o Governo está focado em fazer o que for necessário para que "nada fique como dantes". Costa acredita que as medidas já anunciadas pelo Executivo não vão fazer derrapar o défice e explicou porquê.

“Nós estamos convictos que não [que não vão fazer derrapar o défice], primeiro porque as próprias regras da União Europeia dão um tratamento diferenciado a medidas de natureza excecional como são estas, em segundo lugar porque temos procurado assegurar mecanismos de apoio que não contabilizam para o deficee finalemente porque temos feito um esforço acrescido na gestão orçamental em outras áreas para poder responder também aqui que é a necessidade."

Mas apesar de estar confiante de que o défice não vai derrapar, deixou claro que, no que aos incêndios diz respeito, essa é “a última das preocupações” do Executivo.

“Acho que a última das preocupações que devemos ter neste momento relativamente a esta matéria é saber o seu peso para o défice. Claro que não podemos abandonar o obejtivo de termos finanças públicas sãs e felizmente estamos a conseguir alcançar os nossos objetivos, mas não podemos, em nome do défice e de uma obsessão, não fazer o que é necessário fazer no apoio às populações, à economia, nos territórios e nas reformas.”

E sobre as decisões e medidas já anunciadas, o chefe do Governo teve a oportunidade de justificar a entrada do Estado como acionista do SIRESP.

"Nós decidimos tomar uma posição acionista na sociedade SIRESP SA para criar melhores condições para que sejam feitos os investimentos que são necessários fazer para assegurar a redundância e para evitar as falhas do sistema de comunicações de emergência."

O Governo garante que vai fazer tudo para que "nada se repita", mas insiste que é preciso ter a consciência de que o país tem "vários problemas estruturais" e que aquilo que é preciso fazer "leva tempo a produzir efeitos".  

É possivel garantir que vamos todos fazer tudo para que nada se repita e a melhor forma de o cumprir é assegurar o compromisso de que nada fique como dantes. Agora ninguém pode responsvelmente desvalorizar o risco que existe e que é importante que os cidadãos tenham cosnciência porque nós temos vários problemas estruturais, temos um problema estrutural que tem a ver com o despovoamento do interior, um problema estrutal que é o desordenamento da floresta, temos um problema estrutural agravdo com as alterações climáticas e temos também um problema relativamente ao nosso sistema de prevenção e combate aos incêndios. E temos que conseguir fazer aquilo que leva tempo a produzir efeitos, tomando as medidas imediatas que reforcem desde já a segurança."