O histórico socialista António Arnaut apelou esta sexta-feira à formação de um Governo “patriótico e de esquerda” liderado pelo PS, integrando também o PCP e o Bloco de Esquerda, para “defender os interesses” dos portugueses.

“O quadro parlamentar é inédito”, após a coligação Portugal à Frente (PSD/CDS-PP) ter vencido as eleições do passado domingo, com maioria relativa, tendo os principais partidos da esquerda (PS, BE e PCP) ficado com a maioria dos deputados na Assembleia da República (AR), realçou António Arnaut à agência Lusa.

O ex-mandatário nacional da campanha do PS para as legislativas disse que, após reprovação na AR de um eventual executivo formado por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, aqueles três partidos deverão “assumir as suas responsabilidades” e constituir “um Governo mais conforme os interesses nacionais”.

Um Governo “mais patriótico e de esquerda”, liderado pelo PS, “estaria em melhores condições de defender os interesses do povo, dos trabalhadores, reformados e pensionistas”, sublinhou.

Nas atuais circunstâncias políticas e sociais, o PS está “numa posição de grande responsabilidade” e cabe-lhe ser “o partido charneira” que viabilize uma solução governativa com a participação de bloquistas e comunistas.

Tal Governo, “tendo em conta a realidade e a experiência dos últimos quatro anos”, com o PSD e o CDS-PP coligados no poder, deverá travar “a destruição significativa dos setores públicos da economia nacional”, preconizou o principal impulsionador do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Na sua opinião, PS, BE e PCP deverão empenhar-se na constituição de um Governo “que defenda o Estado social e que impeça a destruição” do SNS, da Segurança Social e de outros serviços públicos.

“Seria o Governo com maior capacidade de proteger as classes mais fragilizadas e de defender as conquistas de Abril e a Constituição”, acrescentou.

Os principais partidos da esquerda, segundo António Arnaut, têm agora a oportunidade de “acabar com esse absurdo a que chamam arco da governação”, que restringe a responsabilidade governativa ao PS, PSD e CDS-PP.

A inclusão do PCP e do BE, além de “reforçar o Governo”, era também “uma forma de chamar estes partidos à democracia representativa e fazer com que cada um assuma as suas responsabilidades”.

António Arnaut, que esteve na fundação do PS, em 1973, na Alemanha, afirmou à Lusa que comunistas e bloquistas “deveriam, preferencialmente, entrar no Governo”, mas admite um executivo do PS “com apoio parlamentar” das outras forças de esquerda.

No entanto, PCP e Bloco “teriam de abdicar, pelo menos transitoriamente”, das suas posições no plano internacional, designadamente quanto à permanência de Portugal na NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN na sigla em inglês), na União Europeia e na Zona Euro.

Existe “uma grande afinidade entre os três partidos” para preservarem o Estado social e “as conquistas de Abril” consagradas na Constituição da República, disse.

No PS, “a maioria aceitará esta solução”, de acordo com “os valores históricos do socialismo democrático”, a qual “até pode ter repercussões na Europa”, concluiu António Arnaut.