Geringonça é palavra que se ouve, sem complexos, no 21º Congresso do PS, desde o primeiro momento. Os socialistas querem tirar proveito da designação dada por Paulo Portas à solução governativa de esquerdas. E também a apresentação da moção de estratégia de António Costa não foi exceção. Novidade foi a referência a António José Seguro, rival que Costa derrubou nas primárias. Chegou no segundo dia da reunião magna pela voz do autor da moção adversária, Daniel Adrião, que também enviou um "abraço" a José Sócrates.

Coube à secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, dar voz à moção "Cumprir a alternativa, consolidar a esperança". Enalteceu a "coragem" do partido, de ter ido, inclusive, contra "o arco da governação sistematicamente exigido pela sociedade portuguesa", encontrando uma solução alternativa que, promete, funciona e está para durar. 

"Quero dizer de forma clara para todos ouvirem: mesmo contra todas as expectativas, mesmo contra todas as expectativas, a geringonça está cá, funciona e está para durar e vai continuar a trabalhar para melhorar a vida dos portugueses. O PS honrará contratos com os portugueses, compromissos à esquerda e honrará compromissos europeus"

Um recado para os críticos que se encontram na sala, nomeadamente Francisco Assis, aquele que publicamente mais assumiu a sua discordância com a solução engendrada por António Costa para formar governo.  "Tenho de dizer aos meus camaradas que preferiam a solução de apoiar a direita, estaríamos aqui hoje a lamentar-nos com o aumento do empobrecimento, corte dos salários e mais austeridade que nós recusamos e recusaremos sempre".

Ora, Ana Catarina Martins defendeu o mérito dessa arquitetura e da moção apresentada pelo secretário-geral do PS e primeiro-ministro, dizendo que "constrói uma alternativa à austeridade, é uma bússola da importância descentralização", que é um caminho para a reforma do poder local e defende, por outro lado, os valores basilares da Europa.

"A solução governativa à esquerda já deu provas, ao contrário dos maus augúrios, da pluralidade e da estabilidade que a democracia exige". 

Os  desafios "são difíceis no Governo, no país e no PS", mas está confiante: "Temos rumo, determinação e vontade para não andar ao sabor do vento".

Um rumo espelhado na moção de António Costa que defende "a luta por uma sociedade mais justa e mais igualitária, em claro confronto com a ideologia neoliberal, contra o Estado minimo e assistencialista", atirou, num recado à política de direita.

Quanto ao papel do PS, defende, como já ontem sublinhou o próprio Costa, que partido "não se esgota no Governo" e que está a conseguir inverter essa tendência de se "esvaziar". Precisa, ainda assim, de fazer mais: "O PS deve dar mais voz, em todos os níveis de decisão partidária, a todos os socialistas, e àqueles que fazem a sua vida social e cívica fora dos meandros do Governo, do Parlamento e das autarquias". 

Ana Catarina Mendes foi também mais uma socialista a perspetivar os "combates" do PS nos próximos dois anos: as eleições regionais dos Açores (confia na renovação da confiança em Vasco Cordeiro para governar) e as eleições autárquicas do outono de 2017: "Sem nenhuma coisa a esconder, o PS tem a sua alternativa, a sua estratégia e defenderá sempre os seus projetos locais". Saudou "particularmente" Fernando Medina: "Lisboa está imparável com a sua liderança".

O "abraço" a Sócrates

Depois, foi a vez de Daniel Adrião apresentar a sua moção "Resgatar a democracia". Entrou a jogo não pela crítica, mas sim por um movimento "de massa crítica". Elogiou Costa em diversos campos, mas apontou-lhe "os erros" que o fizeram ter o "imperativo de cidadania" de apresentar uma moção própria. 

Os seus dois principais objetivos são mudar o funcionamento interno do PS e alterar a lei eleitoral, o que Costa recusa liminarmente nesta legislatura. Uma das propostas passa pela abertura das eleições primárias a simpatizantes. Escreveu-o preto no branco e, no palco do congresso, dirigiu-se olhos nos olhos a António Costa, para lhe lembrar o que aconteceu há ano e meio quando fez cair António José Seguro:

"A tua vitória nas primárias deu-te mais legitimidade, do que estas últimas diretas".

Deixou, de resto, a sua manifestação de orgulho pelo trabalho de Seguro, bem como de Mário Soares, Jorge Sampaio e António Guterres. Não esqueceu José Sócrates, o único a quem enviou, inclusive, um abraço. Foi recebendo alguns aplausos, embora com pouco impacto, durante a sua intervenção.

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